Fatma aprova licença para hotel na Ponta do Coral

Mesmo em meio a protestos de parte da população de Florianópolis, que questiona a legalidade do processo de aprovação do projeto de um hotel que a Hantei Engenharia pretende construir na Ponta do Coral, a empresa recebeu a Licença Ambiental Prévia (LAP) da Fundação do Meio Ambiente – Fatma.

A Prefeitura de Florianópolis já expediu as demais licenças.

Entenda por que o movimento Ponta do Coral 100% Pública questiona o processo clicando aqui (vídeo)


Enterro dos Ossos, ressurreição do Parque das Três Pontas

Por Fernanda Pessoa (fotos e texto), para Desacato.info

A tarde de ontem foi de um prazer imenso. Mais de 300 pessoas passaram pela Ponta do Coral e declararam o seu amor à natureza. A ação na região começou logo cedo, quando os organizadores do Ato Enterro dos Ossos na Ponta do Coral, o Movimento Ponta do Coral 100% Pública, passaram a fabricar os cartazes e fazer um mutirão de limpeza no terreno.

Durante a tarde, centenas de pessoas passaram pelo ato que defende a Ponta do Coral 100% Pública, com a criação de um parque no local com mais respeito à natureza, lazer e cultura para a população de Florianópolis. O Hotel de 18 andares da Hantei Engenharia, com licenciamento aprovado pela prefeitura há algumas semanas, é um projeto beneficia uma minoria na cidade. Afinal, quem possui condições de usufruir um hotel de luxo nesta cidade são poucos.

Por outro lado,a construção do parque favoreceria a todos. Um lugar para ir com a família, brincar com as crianças, um espaço para promoção de cultura na cidade, uma alternativa aos caros shoppings em dias de inverno e às filas quilométricas para as praias no verão. Um parque como os existentes em Curitiba, São Paulo e Buenos Aires faz muita falta nesta cidade.  Na tarde de ontem, deram um exemplo de como isso é possível. Com muito samba, integração e diversidade, o Enterro dos Ossos reuniu pessoas de diversas idades e formação com um único objetivo: defender a Ponta do Coral dos interesses elitistas.

O que está em questão nesse protesto, muito mais que a defesa dessa região, é a luta por um modelo de cidade que concilie o crescimento populacional e urbano com aspectos ambientais, culturais, antropológicos, históricos e sociais. Está em debate a questão do direito à cidade. É importante que nós saibamos o tipo de cidade que queremos, pois é a partir da cidade que estabelecemos os nossos vínculos sociais, a relação com a natureza e o nosso estilo de vida.

Desejamos uma Florianópolis com mais um hotel de luxo, cujo projeto prevê mais aterros, mais carros e ignora os pescadores tradicionais da região? Ou queremos um lugar onde a natureza seja respeitada, assim como os aspectos antropológicos, onde a população da cidade pode usufruir sem ter que pagar? Em tempos em que a qualidade de vida urbana já é mercadoria, essa é resposta pode ser o inicio de um processo de remodelamento das formas de ocupação desta cidade.


Movimento de defesa da Ponta do Coral faz ato em Florianópolis

Militantes da defesa da Ponta do Coral e populares exigiram ver o projeto e reiteraram a proposta de uma Ponta do Coral 100% pública

Por Elaine Tavares, Palavras Insurgentes

Nem o calor ou a iminente saída do bloco que abre o carnaval da capital impediram aqueles que realmente lutam por Florianópolis de realizar um ato de protesto em frente à Fundação do Meio Ambiente (Fatma), entidade estadual que é responsável pelas licenças ambientais quando algum empreendimento, governo ou mesmo uma pessoa comum quer construir alguma obra. Ela seria, segundo o prefeito da capital catarinense  – Cesar Souza  – a entidade que daria a decisão final para  a construção de um hotel de 18 andares na Ponta do Coral, um pequeno braço de terra que avança para o mar, bem em frente a já elitizada Beira-Mar.

A polêmica sobre a famosa ponta não é de agora, ela vem de longe, desde quando o governo vendeu o que era uma área pública, sem passar pela autorização de ninguém. Depois de muitas idas e vindas, na luta da população pela recuperação da área e pela construção de um parque público no local, o atual prefeito da cidade, que usou a defesa da Ponta do Coral como mote para se eleger, atirou a bomba na população: o tal hotel seria construído, mas, com uma modificação, sem a fabricação de um aterro. Entendeu Cesar Souza que isso seria visto como um “ganho” e decidiu, sozinho, que a obra iria acontecer mesmo contra o Plano Diretor da cidade. Para isso editou um decreto que autoriza a empresa Hantei a subir os 18 andares porque, segundo ele, teria protocolado o pedido antes da aprovação do plano diretor. É quase uma novela mexicana, com vilões muito malvados e enganadores, cheios de tramoias, subterfúgios e vilanias.

Para ficar ainda mais perverso, o anúncio da obra veio pela boca de uma pessoa que sempre foi defensora das causas ambientais e urbanas, que agora ocupa o cargo de diretor do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf), o arquiteto Dalmo Vieira Filho. A notícia saiu nos dias que antecedem o carnaval, apostando na desarticulação dos movimentos.

Não funcionou. Rapidamente, os movimentos sociais se organizaram, realizaram reuniões e já marcaram um ato para a frente da Fatma, onde iriam reivindicar a devolução do projeto à prefeitura, em função da ilegalidade do decreto do prefeito. Então, se o decreto é ilegal, a entidade ambiental não poderia nem encaminhar para o parecer técnico.

Desde a uma hora da tarde começaram a chegar os militantes ambientais, representantes de entidades populares, vereadores, e pessoas em geral, moradores de Florianópolis que já não suportam mais ver a cidade sendo pilhada e destruída. Em pouco tempo já eram dezenas, portando cartazes, gritando palavras de ordem e pedindo a presença do presidente da Fatma. Em assembleia direta foi escolhida uma comissão para subir e conversar com a direção, mas, quando os representantes estavam entrando, um dos diretores anunciou que o presidente em exercício, Paulo Freitas, iria descer e falar com todos.

Em frente à entidade, Paulo Freitas ouviu as reivindicações dos moradores, que exigem a Ponta do Coral 100% pública. Foi cobrado o fato de o decreto do prefeito ser ilegal, ao que o presidente argumentou que não cabe a Fatma definir se é legal ou não. Seu papel, disse ele, é analisar se o projeto está dentro das regras. Muitas vaias e gritos. Elisa Jorge, representando o movimento em defesa da ponta, esclareceu que, ao dar seguimento a um processo que começa ilegal, a Fatma pode ser corresponsabilizada por essa irregularidade. E insistiu que o presidente disponibilizasse o projeto para que os representantes do movimento e os vereadores pudessem analisá-lo. O receio dos moradores é que, durante o feriado de carnaval, o processo possa ser alterado. “Temos muitos exemplos de coisas assim. A moeda verde, a operação ave de rapina (ambas as histórias de corrupção envolvendo licenças), somos gatos escaldados. Essas coisas acontecem. Nós queremos ver o processo, tirar uma cópia, analisar”.

Depois de muitas falas, gritos e palavras de ordem, o presidente da Fatma propôs uma reunião para essa sexta-feira, às duas da tarde, com os vereadores Lino Peres, Afrânio Bopré e Pedrão, e representantes do movimento de defesa da Ponta do Coral. Nesse encontro ele se comprometeu de apresentar o projeto na sua íntegra, com cópia de todos os documentos. O acordo, fechado às pressas, acabou criando um desconforto nos manifestantes, porque a decisão era ter acesso ao projeto no ato. Então, depois da saída do presidente da Fatma, a plenária continuou discutindo. Não aceitava deixar para o dia seguinte. Ou a Fatma dava as cópias ou ocupariam o lugar.

A proposta final foi entrar de novo na fundação, pressionando um pouco mais, e exigir a cópias dos documentos. Outra conversa com a direção da fundação foi realizada e os documentos acabaram sendo mostrados e copiados. Vitória do movimento. Ainda assim, nessa sexta-feira, a reunião acordada acontecerá, já com uma discussão mais aprofundada sobre o projeto em si.

A luta pela Ponta do Coral segue firme e não esmorecerá. Agora, outras frentes se mobilizam. Além da discussão com a Fatma busca-se provar a ilegalidade do decreto do prefeito César Souza e sensibilizar a população para que se mobilize em defesa da ponta. Hoje, o argumento usado pela mídia é de que o lugar é ponto de drogas e que o hotel vai “melhorar” o ambiente. Nada mais hipócrita. O que a população quer é investimento num parque público, que seja entregue as gentes da capital. Não querem um paredão de concreto, isolado no braço de terra que dá para o mar, servindo apenas a uns poucos que tenham dinheiro para desfrutar da beleza da baia. A Ponta do Coral é 100% pública.


Parque Cultural das 3 Pontas 2015-02-06 18:53:54

HOTEL É PARA POUCOS. A PONTA É PARA TODOS!
Do Blog do Vereador Lino Peres

Nesta semana o secretário da SMDU (Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano), Dalmo Vieira, e seu adjunto Marcelo Martins assinaram o licenciamento do projeto de hotel de 18 pavimentos da Hantei na Ponta do Coral, na avenida Beira-mar Norte.

Esta é uma lamentável decisão do Executivo e ressaltamos os seguintes aspectos:

1) A inconstitucionalidade do decreto 12.670/2014

Fere a constitucionalidade de Lei 482/2014 (a Lei do Plano Diretor) porque se apoia em um Decreto do prefeito, o 12.670/2014, o qual estabelece que todo processo de aprovação de projetos, licenciamento de obras, renovação de alvará e emissão de habite-se com entrada na prefeitura até o dia 17 de janeiro de 2014 será analisados à luz dos Planos Diretores anteriores, ou seja, as leis 01/1997 e 2193/1985. Este decreto é inconstitucional, pois foi aplicado APÓS a sanção da Lei do Plano Diretor, o que torna nula esta decisão. Uma nova ampliação de prazos foi decretada no último dia 15/01, liberando mais licenciamentos. Além destes dois decretos, o prefeito Júnior vem legislando no Executivo, como no caso da criação do Conselho da Cidade, com critérios discutíveis e questionados por várias entidades comunitárias e do movimento social. Estas medidas caracterizam um governo profundamente autoritário, que atua por decretos e não obedece a legislação urbana federal, como a Lei 10.257/2001, conhecida como Estatuto da Cidade, que estabelece, em seu artigo 2º, que todo programa e plano urbano deverá contar com a participação da sociedade, desde sua concepção até a sua implementação e reavaliação. Isto, como todos sabemos, e o nosso mandato tem denunciado constantemente, foi o que não ocorreu com a aprovação atropelada e em tempo recorde do Plano Diretor no final de 2013 e início de 2014.

2) As promessas de campanha

O prefeito Cesar Souza Júnior nega, com a aprovação do alvará deste empreendimento na Ponta do Coral, o que afirmou em sua campanha: “Desse tamanho, nesse ponto que já está estrangulado, me desculpe, nenhum administrador de bom senso pode apoiar.” Nega também o que falou quando da revisão dos alvarás em 2013, já como prefeito: “o empreendimento privado estava sobre o interesse público […] A farra de fato acabou, agora é o império da lei”. No site da prefeitura, o prefeito complementa: é “o fim da era dos processos às escuras e das aprovações relâmpago”. Cai a máscara de passar para a sociedade uma imagem de que haveria um comprometimento técnico de seu governo com o meio ambiente e contra empreendimentos de potencial impacto.

Os vídeos podem ser vistos em:

https://www.youtube.com/watch?v=0dfGWKQXC0A

https://www.youtube.com/watch?v=EjIA3wF7_g8

http://www.pmf.sc.gov.br/entidades/comunicacao/index.php?pagina=notpagina¬i=7816

3) Os pareceres contrários

O IPHAN, órgão responsável pelo Patrimônio Nacional, em dois pareceres (141/11 e 066/12), assinalou a importância histórica e atual da Ponta do Coral e que não deveria ser ocupada por empreendimentos, garantindo o espaço como livre e público. O segundo documento foi assinado pelo arquiteto Dalmo Vieira Filho, que na época era superintende da autarquia federal em SC e hoje, acumulando as pastas do IPUF e SMDU, acaba de aprovar o Hotel de 18 andares na Ponta do Coral, ferindo o seu próprio posicionamento institucional anterior.

4) Danos ambientais

O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente e responsável pelas Unidades de Conservação Federais, emitiu parecer contra o empreendimento de hotel da Hantei. Em seu documento, destaca que a Ponta do Coral fica na Zona de Amortecimento da Estação Ecológica de Carijós, bem como do Parque Municipal do Manguezal do Itacorubi, portanto: “Quanto aos possíveis impactos à ESEC Carijós e analogamente, ao Parque Municipal do Manguezal do Itacorubi, áreas muito semelhantes, compostas por manguezal, estuários e planícies de maré, resta claro o risco de danos ambientais”;

5) O impacto paisagístico

A Fundação Catarinense de Cultura – FCC, através do parecer 05/11, retrata o impacto do empreendimento para a cidade: “se a venda e a permissão à verticalização se mostraram decisões equivocadas do poder público, a materialização da proposta cria uma situação de irreversibilidade da paisagem. E tão grave quanto, incentiva novas construções nas áreas verdes do entorno e abre perigoso precedente […] Considera-se a área da Ponta do Coral como patrimônio paisagístico, dotada, portanto, de grande valor ambiental, natural e cultural. […] a conclusão deste parecer é de que as consequências negativas do empreendimento sobre esta área e sobre a cidade sobrepõem-se aos benefícios apontados, indicando ser inadequada a implementação do empreendimento no local.”;

6) O parecer do IPUF em 2011

O IPUF, órgão municipal responsável pelo ordenamento urbano de Florianópolis, presidido atualmente por Dalmo Vieira, em parecer requerido pelo Ministério Público Federal em 2011 (976/11), levanta os aspectos ligados ao patrimônio presente no local: “Além do valor histórico cultural […] a área apresenta grande valor paisagístico […] Segundo o SEPHAN este local apresenta valor como Local de Memória, pelo valor histórico e paisagístico cultural da área, bem como pelas manifestações populares em sua defesa. […] A intensa manifestação popular, ao longo de muitas décadas, recomenda o seu público para o lazer da população”;

7) Impedimentos legais

A Superintendência do Patrimônio da União – SPU, responsável pelas áreas de marinha e aterros, ao longo da gestão de Isolde Espíndola, reiteradas vezes levantou os aspectos legais que atravancaram as tentativas de aprovação do projeto do Hotel. O Município não tem competência para autorizar aterros ou usos das áreas de marinha, bem como estes não se prestam ao interesse privado, sendo somente permitidos quando precedidos de estudos técnicos e para atender a coletividade. As áreas pertencentes à União precisam ter seus usos referenciados pela Função Social da Propriedade e o direito de propriedade não pode ser confundido com o direito de construir. Foram dois os pareceres do órgão que sustentam os argumentos (Processo Nº 04972.005025/2009 e Processo Nº 04972.006553/2012-81);

8) O olhar da academia

A academia também tem manifestação em defesa da Ponta do Coral como área pública de lazer: “O Colegiado do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Santa Catarina, reunido no dia 10 de outubro de 2011, manifesta-se pela preservação da Ponta do Coral como área pública de uso cultural e de lazer que, junto com a Ponta do Lessa e Ponta do Goulart, conformará o “Parque das Três Pontas”. A defesa da Ponta do Coral, e sua utilização pública e cultural, conta com o apoio da comunidade acadêmica do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UFSC desde o início dos anos 80, desenvolvendo-se neste local diversos trabalhos acadêmicos, principalmente Trabalhos de Conclusão de Curso, todos prevendo atividades públicas culturais e de lazer para este lugar.”;

9) A visão do Ministério Público Federal

Além destes órgãos, o Ministério Público Federal (MPF), através da Procuradoria da República, analisa este segundo projeto na Ponta do Coral e apresenta óbices jurídicos. Em diversos pareceres anteriores, fica ressaltada a importância do local para a coletividade e há argumentos sob aspectos diferentes. Impactos no trafego, ausência, nos Estudos de Impacto Ambiental, do potencial risco para as comunidades pesqueiras tradicionais da região das Três Pontas, interferências negativas no meio físico e biótico das Baías Norte e Sul, impacto nas Unidades de Conservação próximas e, por fim, destaca a vocação inegável da área para usos públicos. O dossiê do MPF é composto por laudos técnicos e periciais, pareceres e Ação Civil Pública;

10) Liberação afronta decisão da Câmara

A Câmara Municipal aprovou, na Lei do Plano Diretor (482/2014), sancionada em 17/01/2014, a construção de um empreendimento na área, mas sem o aterro, de, no máximo, 6 andares, deliberação em relação à qual o nosso mandato foi contrário, pois defendemos, com o Movimento Ponta do Coral 100% Pública, que a área seja pública. Aliás, o vereador Lino Peres, como professor desde 1981, quando a área foi arbitrariamente vendida, já se manifestava para que esta área fosse pública e de natureza cultural;

11) Luta pela área pública vem dos anos 1980

A luta dos movimentos sociais em defesa da Ponta do Coral é antiga. Desde 1981, quando a área foi vendida pelo então governador Jorge Bornhausen (a venda é considerada irregular e está em trâmite judicial), estudantes, moradores, pescadores artesanais e o conjunto da população se manifestam contrários aos usos privados e abusivos pretendidos. Nesse último período o Movimento Ponta do Coral 100% Pública tem realizado vários atos e campanhas pela utilização pública e cultural desta área, e tem recebido enorme apoio. Obteve mais de 17.500 assinaturas no abaixo-assinado virtual pela defesa da Ponta do Coral 100% pública.

12) Área deveria ser AVL

Na Câmara Municipal de Florianópolis (CMF), por iniciativa do então vereador petista Mauro Passos, esta área retornou ao seu zoneamento original de AVL – Área Verde de Lazer, mas, em segunda votação, a maioria dos vereadores preferiu privilegiar o empreendimento privado, transformando-a em ATR – Área Turística Residencial. Dessa forma o terreno ganhou uma grande valorização, dificultando a aquisição pelo poder público. Vale lembrar que esta matéria tramitou novamente na Câmara e mais uma vez foi derrotada pelos vereadores desta legislatura. É importante ressaltar que, com o hotel de 18 andares, se perderá mais uma área pública da cidade, além de a paisagem ficar definitivamente comprometido com a presença de uma torre dessa altura em um promontório único na região e de vista privilegiada. Isto significa que um empreendimento privado monopolizará para sempre um ponto notável e excepcional da paisagem. É lamentável que o poder público não tenha esta compreensão ou não a queira ter. Qualquer intervenção nesta área deve ser pública e de enorme simbologia a ser debatida pela sociedade, nos marcos do patrimônio material e imaterial, sendo necessário que esse elemento, a paisagem, entre no Estudo de Impacto Ambiental.

13) Aumento do já congestionado tráfego na Beira-mar Norte

Os dois projetos (com aterro, marina e com 22 andares e o atual, com 18 pavimentos e sem aterro) de Hotel na Ponta do Coral tiveram apenas duas audiências públicas, mal convocadas e pouco divulgadas na mídia. Portanto, a população como um todo não tem conhecimento pleno dos impactos que poderá causar este empreendimento, como aumento do já congestionado tráfego na Beira-mar Norte. Por isso deve ser feito Estudo de Impacto de Vizinhança desse empreendimento como polo gerador de tráfego.

Portanto, em qualquer hipótese, com 6, 18 ou 22 andares, a obra privatizaria uma bela região, que é patrimônio de todos e que faz parte do circuito das Três Pontas (Ponta do Coral, Ponta do Lessa e Ponta do Goulart) na embocadura do já tão fragilizado manguezal do Itacorubi.

O Mandato do Professor Lino Peres continua investigando a tramitação da aprovação deste projeto e exigirá que seja anulada esta iniciativa por ser inconstitucional e viciada desde sua origem. Não podemos permitir que este empreendimento se consolide. Precisamos parar a atitude “decretapata” do prefeito, que legisla sob exceção e contra a gestão democrática da cidade. Esta atitude lembra períodos ditatoriais de muitos governos e da ditadura militar no Brasil, que governou sob decreto em regime de exceção.

A Ponta do Coral pertence ao povo catarinense e é o povo que deve decidir sobre o seu destino!

Por uma Ponta do Coral 100% Pública!

Pelo Parque Cultural das 3 Pontas!


Câmara vota Plano Diretor de Florianópolis burlando todas as regras

Sem poder expressar sua voz, comunidade escreveu. Fotos: Rubens Lopes.

Do blog Palavras Insurgentes, de Elaine Tavares

A Câmara de Vereadores de Florianópolis mostrou nesse dia 26 de novembro, a quem realmente representa na cidade. Burlando regimento interno, Estatuto da Cidade e até a Constituição, os vereadores iniciaram a votação de um Plano Diretor alterado por quase 700 novas emendas – que não passaram por avaliação do Instituto de Planejamento Urbano –  abrindo caminho para mais uma onda de especulação imobiliária, crescimento desenfreado, destruição e lucros exorbitantes para um determinado setor: o da construção civil.

Florianópolis é, basicamente, uma ilha (97% do seu território). Isso, por si só já delimita muita coisa. Tem um espaço que não pode se expandir, determinado pela capacidade de água, energia e mobilidade. Com um total de 436 quilômetros quadrados – entre ilha e continente – possui hoje quase 500 mil habitantes, embora pelo corredor metropolitano circulem mais de um milhão de pessoas. Assim como está, já enfrenta gargalos complicados, como é o caso da mobilidade urbana. Feita de ruas estreitas e  mal planejadas, vivencia todos os dias, engarrafamentos homéricos. Sair da ilha para o continente depois das cinco da tarde requer paciência de Jó. Passar de um bairro do sul para o leste ou norte, de ônibus, pode levar mais de três horas, embora as distâncias não sejam grandes. No verão, época de temporada de praia, a população triplica e podem ser contabilizadas mais de um milhão de pessoas só na ilha, aprofundando o caos. Falta de água e luz são constantes nessa época, mostrando a completa falta de estrutura para tanto adensamento populacional.

Por oferecer mais de 42 das mais belas praias do estado de Santa Catarina, a chamada “ilha da magia” é um dos destinos turísticos mais procurados por gaúchos, paulistas e visitantes de todo o mundo. Não é sem razão que o metro quadrado na ilha é o terceiro maior do país –  custa R $6.620,00 – ficando atrás apenas de Santos e São Paulo (dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas/ FIPE). E, por conta do crescimento que se deslocou para o sul, é no bairro do Campeche que os imóveis estão custando mais caro hoje em dia, rivalizando apenas com o centro da cidade. Um terreno simples de 360 metros quadrados, sem escritura pública, não sai por menos de 100 mil reais. O preço médio de um imóvel na ilha está em 700 mil reais.

Esses mínimos dados já conseguem iluminar o que está em disputa na batalha do Plano Diretor. Longe de preocuparem-se com o bem-viver ou a qualidade de vida da população, os vereadores – com raras exceções – estão a serviço das construtoras que veem na cidade um filão ainda bastante gordo de crescimento, por conta da proposta de verticalização que está dada no Plano que começou a ser votado nessa terça-feira. Assim, o que está em tela é um dos mais rentáveis balcões de negócio imobiliário do país. Vejam que não é pouca coisa.

Conforme manda o Estatuto da Cidade, o processo de construção do Plano Diretor participativo começou durante a gestão de Dário Berguer, há sete anos. Mas, ao contrário do que dizem os vereadores da situação, não foi algo que teve fluxo contínuo. Todo o trabalho foi marcado por conflitos e interrompido diversas vezes, obrigando a população a se mobilizar e lutar de forma acirrada para fazer valer seus direitos. De qualquer forma, premido pelas gentes, o plano foi se fazendo até 2010, quando o então prefeito Berguer suspendeu tudo e encaminhou para um empresa fazer a versão final. Segundo ele, ela apenas sistematizaria o que foi construídos pela população, mas não foi isso que aconteceu. A empresa incluiu mudanças que beneficiavam a lógica do lucro da construção civil.

Para que a população tenha uma ideia, o plano destinava áreas que tinham sido definidas como de lazer para construção de prédios, aumentava o gabarito dos prédios (número de andares possíveis de serem construídos), priorizava grandes empreendimentos e basicamente não respeitava a vontade da população. Grandes batalhas foram travadas e a população conseguiu barrar. Com a eleição do novo prefeito no ano passado, a discussão recomeçou. E, para surpresa de todos, o Núcleo Gestor Municipal – formado por representações populares dos três distritos de Florianópolis – foi destituído pelo novo prefeito. Assim, outra proposta de Plano Diretor, remexida pela nova administração foi apresentada à Câmara. Segundo a lei, qualquer alteração ao Plano teria que passar por novas audiências públicas nos distritos, mas isso não aconteceu. A prefeitura realizou apenas duas audiência, muito mal convocadas. Ainda assim, nas falas dos movimentos sociais e dos envolvidos na discussão desde 2006, ficou claro que havia muitas mudanças e elas precisavam ser melhor discutidas. Fazendo-se de surdo aos reclamos da população o prefeito César Souza entregou, no dia seguinte à audiência, o projeto prontinho para a Câmara. A casa legislativa aprovou o documento que tinha sido acrescido de quase setecentas emendas, em prazo recorde, sendo que três comissões votaram o plano em um único dia. Ora, é humanamente impossível analisar o conteúdo de 700 emendas em um dia.

A farsa da votação

Apesar dos reiterados pedidos dos vereadores Lino Peres (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) para que o documento fosse melhor analisado, com mais tempo para o estudo das emendas, a maioria dos vereadores “patrolou” o processo que foi levado para a votação no dia 19 de novembro, às quatro horas da tarde, horário propício para o esvaziamento de povo. Afinal, as pessoas trabalham. Pois a Justiça expediu uma liminar suspendendo a votação, por entender que todo o rito estava comprometido. Se emendas novas foram feitas, novas audiências deveriam ser efetuadas e o plano re-analisado pelo IPUF (órgão de planejamento da cidade). Vitória da população que conseguiu mais tempo para discutir e conhecer o conteúdo das propostas. Mas, o sonho durou pouco. Dias depois, uma instância superior da Justiça cassou a limitar e o processo recomeçou, indo à votação nessa terça (26).

De novo, a Câmara chamou a sessão para o horário da tarde, juntando, à discussão do plano, uma homenagem à APAE, o que fez com que o plenário lotasse com os “homenageados”, impedindo as pessoas de entrar. Com isso, armavam o circo de desinformação e desestruturação da organização das comunidades. Por duas horas, as pessoas ficaram no sol, esperando que a porta fosse liberada. A entrada só foi possível às cinco horas e até as sete da noite nada acontecia. No plenário, os vereadores esperavam pelo presidente da casa que, segundo informações dadas pelos vereadores Lino e Afrânio, estava em reunião com o prefeito. Mostrando completo desprezo pelas pessoas que ali estavam lutando pela cidade, os “nobres edis” se divertiam no facebook ou observando sites como o Voice Brasil. Nenhuma informação era passada. O que era a conversa do presidente da casa com o prefeito? Por que acontecia naquele momento? O que tramavam? Cabia ao povo supor que estava sendo articulado um acordo, possivelmente com a participação do empresariado da construção civil. Afinal, nas centenas de emendas estavam aquelas que aprovavam novos gabaritos (permitindo mais andares em vários bairros) e grandes empreendimentos.

Quando faltavam poucos minutos para as sete, o presidente chegou e se fez o quorum. A sessão começou. Várias falas – do vereador Lino, Afrânio e Matheus (do PC do B, que estreava no plenário) pediam o adiamento da sessão para que fossem cumpridos os ritos legais desse tipo de processo. O presidente César Faria negava, e seguia patrolando.  O vereador Matheus (que é advogado) lembrou aos colegas que até a Constituição estava sendo rasgada e que todo aquele trabalho poderia ser barrado pela Justiça, como aconteceu na cidade de Itajaí, na qual o plano foi votado e depois suspenso por não ter seguido a lei. Mas, havia uma muralha constituída pela maioria que, inclusive, fazia depoimentos na tribuna, ofendendo e tripudiando das pessoas que ali estavam se manifestando. “Podem vaiar, vocês são uma meia dúzia”, provocava o vereador Deglaber Goulart (PMDB).

Vereador Celso Sandrini enfrentando uma moça. Fotos: Rubens Lopes.

Vereador Celso Sandrini enfrentando uma moça. Fotos: Rubens Lopes.

Mas, o ato mais grave e escandaloso foi protagonizado pelo vereador Celso Sandrini, também do PMDB. Enquanto estava na tribuna, a população no plenário se manifestava chamando-o de vendido. Ele se irritou com uma moça que estava bem na frente, no vidro, e a ela se dirigiu, ameaçando: “Quero ver se tu me diz isso lá fora”. Levou vaia. Ainda muito irritado ele saiu do plenário e veio para onde estava a moça, junto ao povo, em clara intimidação e pronto a agredi-la. Ela foi protegida pelas pessoas e alguns rapazes seguraram o vereador. Nessa hora, um segurança da casa, acompanhado de guardas municipais, chegou empurrando todo mundo, como se o agredido fosse o vereador. Tiraram-no da plateia e ele voltou ao plenário como se nada tivesse feito. Ou seja, ele quase agrediu fisicamente uma moça e ainda foi protegido pela guarda. Lá dentro, ninguém se pronunciou contra aquele flagrante ato de falta de decoro parlamentar. Podia cair uma bomba ali que nada pararia a sessão e a entrega da cidade aos abutres da construção.

Assim, protegidos da população os vereadores foram votando as emendas em bloco, mostrando que estavam firmes na defesa da destruição da cidade. Na primeira emenda já derrubaram um dos bastiões da luta popular em Florianópolis: a Ponta do Coral, espaço pequeno de terra que tem na Beira-Mar (uma das principais avenidas). Ali, a população decidiu que quer um parque, mas os vereadores abriram uma mudança de zoneamento para permitir a construção de hotél, além de uma marina, para o atracamento de navios de cruzeiro. Era como um recado bem claro aos militantes sociais que ali estavam: “vocês perderam. Está tudo dominado”. O envolvimento dos vereadores com o cartel da construção era tão flagrante que os relatores dos pareceres se recusaram a apresentá-los em plenário, levando à suspeita de que tinham completo desconhecimento do documento que, em última instância, eles deveriam ter escrito.

Uma das emendas proposta pelos vereadores é pela alteração de zoneamento na Ponta do Coral de 6 para 16 andares. A emenda foi negada, porém os 6 andares permanecem.

Uma das emendas propostas pelos vereadores é pela alteração de zoneamento na Ponta do Coral de 6 para 16 andares. A emenda foi negada, porém os 6 andares permanecem.

A sessão terminou minutos antes da meia-noite e hoje deve continuar. Alterações significativas na vida da cidade estão sendo feitas, sem que as pessoas sequer tenham tido tempo de saber. Bairros como o Estreito, Saco dos Limões e  Pântano do Sul, por exemplo, tiveram gabaritos aumentados, sofrerão vertiginosa verticalização. Áreas de lazer foram sacrificadas ao capital. Tudo está sendo preparado para mais uma onda de construções. A maioria dos vereadores se recusou a discutir questões como  a mobilidade, a capacidade energética. Em nome do discurso fácil do “progresso”, os legisladores estão atendendo interesses que passam longe dos interesses das gentes que vivem na cidade. Todo o desenho do plano está calcado na construção de novos prédios e grandes projetos turísticos. Isso significa dinheiro demais, a considerar que um apartamento numa praia qualquer pode custar até um milhão de reais.

Então, a briga que se trava na Câmara vai muito além do debate sobre qual o projeto de cidade que se pode querer. A única coisa que interessa ali é dinheiro. Business. Negócio. Plata. Boró.

Entre os militantes sociais que acompanharam a farsa, o sentimento era de revolta. Jeffrey Hoff, morador da Lagoa da Conceição e um histórico lutador nessa batalha pelo Plano Diretor Popular, estava desolado, mas ainda acredita que o processo possa ser revisto pela Justiça. “Há muitas irregularidades e ainda não foi julgado o mérito da ação que deu a liminar para suspender. Tenho esperanças que a gente ainda vá discutir esse plano como tem de ser”. Gert Shinke e Raquel Macruz,  do Movimento Saneamento Alternativo, protestaram com o bom humor de sempre, distribuindo senhas às pessoas garantindo a elas uma “alteração de zoneamento, fazendo alusão à rifa que estava acontecendo dentro do Plenário. “São vendilhões e vão responder por isso”.

E assim terminou essa primeira sessão, melancolicamente. A cidade loteada, entregue à especulação. Mas, entre as pessoas que caminhavam par ao terminal de ônibus, ia também a esperança, renitente, afinal, a luta não para. Muita água ainda vai rolar.


Ponta do Coral 100% Pública e Livre de Ocupações

O Movimento Ponta do Coral 100% Pública está solicitando posicionamento e encaminhamentos da Secretaria de Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano (SMDU) acerca do atual processo de definições do zoneamento, dos usos e ocupações do solo, da região da Bacia do Itacorubí, que constam na proposta de Plano Diretor de Florianópolis.

Causa preocupação e estranheza ver a proposta do SMDU no Plano Diretor para manter a PONTA DO CORAL como Área Turística. Essa proposição, se aprovada, continuará afetando a função socioambiental da Zona de Amortecimento do Parque Municipal do Manguezal do Itacorubi, bem como da Estação Ecológica de Carijós, além da Paisagem Natural e da Mobilidade Urbana na região.

Lembramos que todos os pareceres dos entes públicos responsáveis pela gestão da Política Urbana, do Patrimônio da União, do Patrimônio Histórico, Cultural, Natural e Ambiental, manifestaram posições favoráveis pela Salvaguarda da Ponta do Coral, Ponta do Lessa e do Parque Municipal do Itacorubi.

Inclusive, em um laudo técnico extremamente completo, a pedido do Ministério Público, a arquiteta Roberta Ferrari Ghizzo conclui que há uma série de inconsistências tanto nos estudos de impacto ambiental quanto no processo de licenciamento do empreendimento pretendido para a Ponta do Coral, não sendo atendidas, por exemplo, as condicionantes de Estudo de Impacto de Vizinhança e as regras para macro-pólos geradores de tráfego. O parecer destaca ainda divergências da área de aterro e a da Lei Complementar 180/2005.

Como expressão do apoio e da vontade popular, mais de 17 mil assinaturas foram coletadas virtualmente pela petição: ‘Abaixo-assinado SOS Florianópolis – Ponta Do Coral Pública e Sem Edificações. Pela Criação do Parque das 3 Pontas do Manguezal do Itacorubi‘.

Assim, o Movimento defende:

1. O tombamento da Ponta do Coral e Ponta do Lessa ao Patrimônio Histórico, Cultural, Artístico e Natural de Florianópolis;

2. A classificação no projeto de Zoneamento do Uso e Ocupação do Solo no novo Plano Diretor como Área Verde de Lazer

AJUDE NA COLETA DE ASSINATURAS EM DEFESA DA PONTA DO CORAL 100% PÚBLICA!!! Você pode assinar a petição virtual ou imprimir o Projeto de Lei de Iniciativa Popular e ajudar na coleta de assinaturas!