Cambridge Analytica e a Democracia

 

Teu tempo tá passando e tu não toma uma atitude
ludimila

Em 2018, o mundo inteiro caiu da cadeira quando descobriu o ardiloso esquema de influenciação de eleições da Cambridge Analytica (CA).

O mundo inteiro? Tão influenciando eleições?

Não, não. Calma aí. Vamos botar as coisas de outro jeito:

Em 2018, cidadãos ingênuos de países democráticos ficaram indignados ao descobrir que havia uma (única!) empresa fazendo propaganda direcionada durante duas votações, uma nos EUA (2016) e outra na Grã-Bretanha (2017).

Melhorou, né? Agora parece mais realista.

Mas por que tô voltando a esse velho assunto agora?

Porque recentemente assisti ao documentário “The Great Hack” (2019) e dessa vez fui eu que fiquei escandalizado!

O filme acompanha alguns personagens na jornada pela Verdade sobre a eleição de Trump e o plebiscito do Brexit: um cidadão quer seus dados pessoais usados nas campanhas da CA; uma ex-empregada da empresa busca redenção ao descobrir, depois de 3 anos, que andara com o diabo; outro ex-empregado vem jogar lenha na fogueira, mas logo desaparece de cena; uma jornalista, com muita dificuldade e determinação, faz sua investigação, expõe o mal e apela para as gigantes da tecnologia jogarem limpo.

Qual era a motivação de todas essas pessoas? A Cambridge Analytica estava pondo em risco o fundamento do seu mundo político: a Democracia.

Fico meio sem jeito, até me sinto ridículo de ter que levantar a seguinte questão: que democracia é essa?

Por toda parte, vejo as pessoas confundirem seus desejos por justiça e autonomia com o ideal da Democracia, e esquecer a democracia que acontece todos os dias na nossa vida cotidiana.

Pra quem quer entender a diferença entre necessidades humanas reais (como abrigo, comunidade, segurança), abstrações políticas (como paz, democracia) e política governamental (como o governo eleito de Bolsonaro ou Lula), sugiro o vídeo abaixo:

Que achou? Reconheceu sua própria experiência nesse quadro?

Onde entra, então, essa empresa maligna chamada Cambridge Analytica? Bom, ela é uma empresa de propaganda, oras!

Aqui vai um pequeno parênteses: no Império da Democracia, as instituições democráticas funcionam legalmente através de lobby. Ou seja, nos EUA, as empresas interessadas em influenciar o andamento cotidiano das decisões dos “representantes” do povo podem injetar dinheiro na máquina, do jeito e na quantidade que quiserem. Em 2014, foram em torno de 9 bilhões de dólares em influenciação privada no Congresso dos EUA. O que a gente chama aqui de “Corrupção”, lá eles talvez pudessem chamar de “fomento à democracia”.

Esse é o everyday business, a mutreta básica de todo dia. Agora, de vez em quando, previsivelmente a cada quatro anos, um novo mecanismo entra em ação: as eleições. A peça-chave, legal e necessária, desse momento é a propaganda.

Mas o que os Impérios da Democracia entendem por Propaganda? Eles fazem uma diferenciação que não é muito comum pra nós: vender produto é marketing, espalhar ideologia é propaganda. Hmmm…

Dada a neurose imperial, acho que vale a pena tornar a pergunta mais abrangente: o que eles entendem por Comunicação?

Encontrei uma resposta no livro “The Science of Coercion” de Christopher Simpson, sugerido pelo blog SaltaMontes.noblogs.org. O livro trata do desenvolvimento dos estudos de Ciências Sociais nos EUA durante o período dos anos 1945 a 1960. Lá, os principais acadêmicos desse campo receberam centenas de milhares de dólares do governo para fazer avançar os esforços militares durante a Guerra Fria. Foi desse contexto que saíram os computadores interativos e as redes digitais (para processamento de modelos sociais visando contrainsurgência) e uma série de teorizações sobre Comunicação. Obviamente, a produção acadêmica que vingou e serviu de base para as pesquisas seguintes correspondia à política que a financiava.

Uma visão de Comunicação muito usada então era a seguinte: “quem diz o quê para quem”. Um conceito unidirecional e de cima para baixo. Nada a ver com conversa, diálogo ou debate.

Depois de várias páginas mostrando os estudos acadêmicos em ciências sociais e as relações das universidades com os diversos ramos militares, Simpson resume em outra fórmula o que a galera da época queria: comunicação como dominação.

Indignada, Carole Cadwalladr, jornalista do The Guardian, no documentário “The Great Hack“, afirmou que o que a Cambridge Analytica fez “era PsyOps!” E ela mesma dá a definição: “Operações Psicológicas é um termo que os militares usam para descrever o que você faz numa guerra que não é uma guerra.” Era uma descoberta assombrosa. A democracia moderna usava internamente as mesmas táticas viciosas que o exército aplicara no terceiro mundo.

A lista de livros e links sobre guerra psicológica ou operações psicológicas é imensa. Vou manter o foco no coração da democracia mundial e seguir o caminho de Simpson. Por exemplo, o artigo “Política dos EUA para Guerra Psicológica”, de 1946, “focava na melhor forma de usar o que era conhecido sobre as características sociais, psicológicas e antropológicas de uma dada população na hora de escolher a táticas coercitivas que seriam aplicadas contra ela.” Em geral, a guerra psicológica era vista como uma forma mais humana e menos dispendiosa de alcançar um objetivo militar (como hoje se fala do drone!). “Mas, as várias definições de guerra psicológica promulgadas pelo governo [dos EUA], e mais especificamente as definições secretas pensadas para aplicação interna [no próprio país], não deixa dúvidas de que a violência era uma característica consistente e geralmente predominante da guerra psicológica para aqueles que distribuíam os contratos.”

Essas mesmas pessoas, militares e acadêmicos, enchiam o peito de orgulho para dizer, lá em 1957, que “os analistas de opinião pública estão ajudando a combater as forças que vêm atualmente ameaçando a liberdade e a democracia.” Já ouviram isso antes? Coreia, Vietnã, Laos, Camboja, Cuba, Nicarágua, Chile, Brasil, Argentina, Itália, Polônia, … Ou foi em 2001, quando Bush aprovou o Ato Patriótico? Na Invasão e Ocupação do Iraque, de 2003 em diante? Afeganistão, Síria, Egito, Ucrânia, Irã, … Ou somente após o Great Hack da Cambridge Analytica, em 2018?

Será que o disco não risca nunca?!

De forma resumida, Simpson conclui que “a guerra psicológica é a aplicação da comunicação de massas nos conflitos sociais modernos”.

Um pouco de história faz bem à saúde, né? Na verdade a gente fica mal, mas é isso mesmo. Voltemos, então, e vejamos como David Carroll inicia o documentário com a mais ingênua das perspectivas:

“Tudo começou com o sonho de um mundo conectado. Um lugar onde todos deveriam compartilhar suas experiências e se sentirem menos sozinhos.”

Ele segue nesse mesmo tom, enquanto imagens do seu mundo (grandes cidades, pessoas bem vestidas, metrôs limpos, etc.) vão se evaporando em pequenos quadradinhos, dando a entender que são dados indo para a nuvem. Em seguida, aparece uma sequência de vídeos de protestos e agressões, fascistas gritando pelo seus direitos, pessoas negras lutando por suas vidas, um mar de discórdia no facebook. David Carroll, o cidadão do Império Democrático, termina a introdução do filme com a seguinte pergunta:

Como aquele sonho de um mundo conectado nos dividiu?

Apesar de achar que o ponto de vista de Carroll é de uma estreiteza tremenda, vou levar a sério a pergunta e tentar respondê-la continuando minha análise sobre as inter-relações da Tecnologia com a Política.

Antes de mais nada, era esse o sonho mesmo?

A partir do livro “Vale da Vigilância“, de Yasha Levine, podemos aprender um pouco mais sobre a história secreta e militar da Internet. É parte do senso comum que a Internet nasceu nos EUA de um projeto da Guerra Fria nos anos 1960. O que surpreende é que não se compreenda a importância dessa relação de parentesco.

Pergunta-chave geral: por que os militares financiaram e seguem financiando projetos de tecnologia (open source ou não)?

Afinal, por que os militares gringos precisavam de uma rede de computadores, numa época em que computador era sinônimo de prédio e rede era aquilo que nativos exóticos usavam para se deitar? Nada do que a gente entende hoje por internet sequer existia no papel naquela época! Então, antes de tentar salvar uma rede digital inexistente de um ataque nuclear soviético hipotético, os militares queriam loucamente (como também mostra a pesquisa de “The Science of Coercion” sobre onde botaram/botam seu dinheiro) era criar modelos de previsão social alimentados pelos dados colhidos ao redor do mundo sobre populações locais. Esse era um problema real: como a gente trata essa montanha infinita de dados? E pra quê? Para conseguir influenciar o comportamento das pessoas direcionando propaganda ideológica eficiente.

Levine ainda conta que, em 1969, no ano de lançamento da ARPANET (predecessora da Internet), estudantes universitários do MIT e Harvard “viam essa rede de computadores como o início de um sistema híbrido público-privado de vigilância e controle – o que eles chamavam de ‘manipulação computadorizada de pessoas’ – e avisavam que ela seria usada para espionar os estadunidenses e travar guerras contra movimentos políticos progressistas.”

Os gringos manjavam de estratégia, não há dúvidas. Ao mesmo tempo, financiaram tecnologia de comunicação de massas (Internet) e ciências sociais para espalhar a santa palavra da Democracia. E como será que anda isso hoje?

Quando saiu o livro “Guerras Híbridas“, de Andrew Korybko, todo mundo ficou chocado. (Parece que estou me repetindo…) “Que absurdo, tem um país aí que tá influenciando os assuntos domésticos de outros países.” Pra quem achou que isso era novidade, deixa eu lembrar, de novo, um pouquinho de história, mas dessa vez da América Latina no século XX [1] [2]: ali, os EUA realizaram mais de 40 operações secretas, quase todas com documentos já desclassificados do próprio governo, e mais outras dezenas de operações militares ofensivas publicamente declaradas. Aqui tem uma lista com as datas e uma descrição breve sobre cada incursão. E no resto do mundo? E as ações dos países ricos (Inglaterra, França, etc.) que sabiam o que era melhor pros países pobres? FMI, política de austeridade na Grécia,…  Ixi, se for ver isso a coisa não tem fim mesmo.

Aí o cidadão do Império da Democracia pergunta em “The Great Hack” (2019) a um antigo executivo da Cambridge Analytica:

– Você acha que vocês distorceram a democracia?

E o sujeito responde meio surpreso: – Por auxiliar na campanha de um candidato que foi justamente indicado como representante republicano dos EUA? Como isso é possível?

Sim, de fato isso não é possível! Até agora estou tentando entender mais essa novidade.

A Democracia no mundo real não é apenas um sistema centralizado e representativo de tomada de decisões por pessoas ricas que vem aumentando a desigualdade social no mundo. É também um sistema geopolítico de guerra e dominação.  É também o conjunto de valores que, ao contrário de sua associação discursiva com a liberdade, inspiram essas guerras e esse aumento na desigualdade.

Capitalismo, Democracia e Estado-nação nasceram juntos. Parece coincidência, né? Pois não é não. Pega aí, qualquer livro de história, de qualquer ideologia, e vai estar lá, bem descritinho. Aí a gente ouve Carole Cadwalladr, numa fala do TED que aparece no documentário, pedir aos “deuses do Vale do Silício” para considerarem com carinho o que estão fazendo. Pois “não se trata de direita ou esquerda”, se trata de salvar a Democracia.

É preciso um bocado de paciência a essa altura, mas imagino que ela esteja falando de justiça social, pois do contrário, esse salvamento, em termos reais, vai “melhorar as guerras” que virão, isso sim.

Bom, e como é que se compete nas eleições em qualquer país democrático? Através de Propaganda! Um processo bem justo e equilibrado, onde o povo decide por sua conta e risco. O exemplo da eleição de Trinidade e Tobago, relatado no documentário, é exemplar.

O ciclo se fecha.

Gostei de descobrir as maneiras contemporâneas de influenciar eleições que o documentário denuncia. Mas a mensagem que mais forte ficou gravada para mim é a falta de noção dos cidadãos do Império sobre a história e geografia da conquista em nome da Democracia. Se dentro de casa não é justo, imaginem como é aqui fora.

Meu objetivo era ligar os vários pontos dessa tecnopolítica que vem rolando há várias décadas e mostrar que democracia, manipulação e guerra são inseparáveis. Se você luta por liberdade, então lute por liberdade, com unhas e dentes e computadores e enxadas. A ideologia da democracia não nos serve!


É meu palpite que a Cambridge Analytica foi um bode expiatório. Não apenas caiu sozinha, mas sua empresa matriz, a Strategic Communication Laboratories (SCL), que influenciou mais de 200 eleições pelo mundo até 2018, segue operando.

Quer conhecer o mercado de Influenciação de Eleitorado? Termino, então, essa postagem com o vídeo do TacticalTech, Dados Pessoais: Persuasão Política. A brincadeira tá só começando.

 

Estados Democráticos e seus Efeitos Colaterais: Evaldo e Luciano mortos, Assange e Ola Bini presos

No dia 8 de Abril de 2019 o carro de uma família foi fuzilado por 80 tiros no Rio de Janeiro. Dentro estavam o músico Evaldo dos Santos Rosa, que dirigia, o sogro no banco de passageiro, também baleado e, no banco de trás, a companheira do músico, Luciana dos Santos, o filho do casal, de sete anos, e uma amiga.

Os disparos foram feitos por nove militares do Exército Brasileiro, que assassinaram Evaldo e também Luciano Macedo, catador de materiais recicláveis que tentou ajudar a família. A cena da dor de Luciana em frente ao carro perfurado por balas onde se encontrava o corpo do seu companheiro chocou o mundo.

A dor de Luciana dos Santos

No dia seguinte ao crime, o Comando Militar do Leste divulgou uma nota em que dizia que Evaldo e seu sogro eram criminosos. Ambos foram acusados de atirar contra os militares, que revidaram. A nota mentirosa contradizia completamente as imagens divulgadas na internet e os relatos das testemunhas, mas reproduzia o modus operandi das dezenas de “autos de resistência” que acontecem diariamente pelo país.

Evaldo, Luciano e o carro crivado de tiros

Em 11 de Abril, do outro lado do Atlântico Julian Assange era preso em Londres pela polícia Britânica após ser expulso da embaixada do Equador, lugar onde ficou asilado (praticamente preso) durante sete anos, buscando evitar responder por uma acusação de abuso sexual na Suécia, que poderia levá-lo a uma extradição para os EUA.

Julian Assange Preso

Assange ficou conhecido ao tornar-se a face pública da Wikileaks, que ganhou grande repercussão mundial após a divulgação em abril de 2010 de um vídeo chamado “Assassinato Colateral”, que mostrava o massacre covarde de uma dúzia de civis desarmados no Iraque por um helicóptero Apache do Exército dos EUA.

Assassinato Colateral, Iraque, 2007.

Na quinta passada, por 11 votos a 3, os ministros do STM (Superior Tribunal Militar) decidiram por conceder liberdade aos nove militares envolvidos na ação, sendo que a única ministra acusou os militares de manipulação de provas. No mesmo dia o Departamento de Justiça dos EUA apresentou 17 novas acusações contra Assange, que pode enfrentar décadas de prisão após ser acusado de violar a Lei de Espionagem, despertando preocupações de parte da imprensa americana com o cerceamento da liberdade de expressão.

Dois casos que apesar de em contextos distintos nos mostram com clareza a natureza autoritária, hipócrita e assassina dos Estados “Democráticos” e suas Instituições.

Assange foi preso por ajudar a revelar a natureza imperial e assassina dos EUA, o que provavelmente nunca teria ocorrido sem que Chelsea Manning, que serviu ao exército, fornecesse as informações necessárias. Chelsea que passou anos na prisão, sendo a sua detenção mais recente ainda este ano após ter se negado a depor em um caso envolvendo a Wikileaks.

Chelsea Manning

A mais recente vítima desta trama é o desenvolvedor de software Sueco Ola Bini, preso no aeroporto de Quito em 11 de abril, no mesmo dia da prisão de Assange. Seus direitos básicos foram negados: ele não foi informado das acusações e foi mantido sob custódia ilegal sem poder se comunicar com o cônsul sueco. Ola Bini é acusado de “conspirar” com hackers russos e colaborar com a Wikileaks para prejudicar o governo do presidente Lenin Moreno, que entregou Assange de bandeja para seus algozes imperialistas.

Ola Bini

As máscaras vão caindo para aqueles que ainda acreditavam no Estado Democrático de Direito, ou mesmo nas liberdades burguesas, como mostra o caso de Assange com relação a liberdade de expressão, em um processo capitaneado pelos Estados Unidos, ainda sob governo do democrata Barack Obama, e continuada por Donald Trump, com complacência do Reino Unido, da Austrália, Suécia e agora do Equador.

Já aqui no Brasil os “assassinatos colaterais” ocorrem diariamente na guerra contra o seu próprio povo, negro e pobre. Evaldo foi “confundido com bandidos”, estas pessoas que podem ser mortas livremente, desde que se encaixem com determinado perfil bem conhecido por nosso Estado racista e suas policias e forças armadas servis as elites.

Ações que parte da população aplaude ou faz pouco caso, endossando o discurso fascista que ajudou a eleger Bolsonaro e que fornece o apoio popular necessário para a aprovação de projetos de lei como o “PL-Anticrime” do ex-juiz Sérgio Moro, que promete diminuir pena ou mesmo isentar de responsabilização penal policiais que matem em serviço. Não é a toa que o governador do Rio, o também ex-juiz Wilson Witzel se sentiu a vontade para participar de uma operação policial em um helicóptero ao lado de snipers para “dar fim à bandidagem”, e que acabou por metralhar uma tenda evangélica, quase repetindo mais um “assassinato colateral”.

Witzel, governador do Rio no helicóptero em operação que prometia “acabar com a bandidagem”

Os recados são claros: em tempos de crise global do capitalismo, mudanças climáticas e disputas geopolíticas as forças repressivas do Estado se voltam para marginalizar e vigiar ainda mais as classes subalternas, as populações saqueadas pelas guerras e as minorias. Para levar a cabo seus projetos autoritários estes governos precisam contar com uma mobilizada base de apoio,  para a qual não faz diferença moral saber das atrocidades cometidas.

Aquelas que ousarem se levantar contra o status-quo serão acusadas de traidores e duramente reprimidas. Se organizar e tomar medidas para melhorar nossa segurança são imperativos para quem está disposto a resistir aos tempos sombrios que se avizinham, e para quem ainda acredita que outros mundos são possíveis.

Desenvolvedor e Defensor de Direitos Digitais é Preso no Equador

Ola Bini, um desenvolvedor de software livre e ativista pelos direitos digitais e a privacidade foi detido no Equador.

Sua detenção está sendo justificada pela policia pelo fato de ele “viajar muito e ler livros técnicos”, dentre esses livros, citam o fato de ele possuir o livro “Cyber Guerra” de Richard A. Clarke. Por outro lado, de acordo com um boletim emitido pelo Procurador-Geral , Ola teria sido detido para que fossem investigadas atividades ilegais relacionada ao Wikileaks.

A criminalização de pessoas que desenvolvem ferramentas para aumentar a privacidade e que se dedicam para proteger o direito a privacidade é algo muito preocupante. A privacidade é um direito básico de todo o ser humano.

Abaixo está a declaração do Centro de Autonomia Digital (original em Inglês e Espanhol), organização onde Bini atua como Diretor Técnico.

As pessoas que trabalham com software livre e privacidade não devem ser criminalizadas

Não há nada criminoso em querer privacidade.

Ola Bini, @olabini, uma reconhecida figura no âmbito do software livre mundial e defensor dos direitos digitais e a privacidade na Internet, foi detido no aeroporto de Quito, Equador às 15h20 de 11 de abril de 2019. Até onde se sabe não há acusações ou provas contra ele. Não foi permitido a seus advogados se reunirem com ele durante todo o dia de ontem. Às 18h00 anunciaram que o iriam mover para a Unidade de Flagrante da Promotoria no centro norte de Quito para colher testemunhos no âmbitode uma investigação da Promotoria provincial de Pichincha.

Bini, cidadão sueco residente em Equador  não fala fluentemente espanhol e requer um interprete para dar qualquer declaração. O prenderam ilegalmente, sem acusações conhecidas, sem comunicar às autoridades de seu país (Suécia) como estabelecem os protocolos internacionais.

Bini é o Diretor Técnico do Centro de Autonomia Digital e havia postado em sua conta no twitter que iria viajar ao Japão para um curso de artes marciais, uma viagem planejada há mais de um mês. Viu os comentários da ministra do Interior e tweetou: “María Paula Romo, a Ministra do Interior do Equador, esta manhã realizou uma coletiva de imprensa, onde foi alegado que hackers russos vivem no Equador e que uma pessoa próxima ao Wikileaks também vive no país.”

Bini tem sido um programador de software durante toda sua vida. Começou a programar com 8 anos e criou duas linguagens de programação. Tem sido um ativista de privacidade e software livre por muito tempo. Em 2010, a Computerworld na Suécia o nomeou como o 6º melhor desenvolvedor do país.

Já contribuiu com:

  • loke
  • Seph
  • JesCov
  • JRuby
  • JtestR
  • Yecht
  • JvYAMLb
  • JvYAML-gem
  • RbYAML
  • Ribs
  • ActiveRecord-JDBC
  • Jatha
  • Xample
  • JOpenSSL

Segurança de Pé Descalço

Esse projeto está na etapa inicial de concepção. Sugira, pergunte,colabore!

Segurança de Pé Descalço

É uma política pública anarquista de segurança (ou política pública de segurança para a resistência) baseada nos princípios de prevenção e autonomia. A “Promoção da Segurança” visa criar as condições para a ação. Essa campanha pública é inspirada nas iniciativas da Medicina de Pé Descalço, com a diferença de que o “vírus” que combatemos é a vigilância, porém o resultado final é o mesmo, a inação, a morte.

EIXOS:

A política pública anarquista de segurança começará através da formação descentralizada de agentes multiplicadores. Esses agentes receberão um treinamento básico em tecnopolítica e segurança e seu campo de atuação será a implementação imediata de medidas de privacidade e o fomento de boas práticas de segurança. Assim, os coletivos envolvidos com segurança e os agentes formados contribuirão com esta política pública em dois eixos:

– Formação: treinamento básico em soluções técnicas e em tecnopolítica (justificativa ideológica e base ética). Também são relevantes os conhecimentos legais e as particularidades sócio-ambientais do local de atuação do agente multiplicador.

– Atenção Primária: implementação de medidas gerais de privacidade e fomento de boas práticas de segurança individual e coletiva.

OBJETIVOS:

Os objetivos da política pública anarquista de segurança são os seguintes:

  • a curto prazo: proteger os corpos, descentralizar cuidado
    + coletivos de segurança: formação básica de agentes multiplicadores; oficinas direcionadas para assuntos e necessidades específicas reais
    + agentes: implementação de medidas imediatas de privacidade
  • a médio prazo: elevação do nível geral de segurança para que a resistência seja mais efetiva
    + Coletivos de segurança: formação continuada de agentes multiplicadores (com revisão das medidas de atenção primária e atualização); construção de infraestrutura tecnológica; formação em relação à nova infraestrutura
    + agentes: formação de agentes; agentes criam coletivos; fomento de boas práticas de segurança; alfabetização digital
  • a longo prazo: transformação social radical e autonomia
    + Coletivos: os antigos saem de cena (abandonam sua posição de poder); novos coletivos assumem a infraestrutura; manutenção da infraestrutura criada; criação de infraestrutura
    + agentes: formação de agentes; agentes criam coletivos; fomento de boas práticas de segurança; alfabetização digital

Treinamento BÁSICO:

5 ações imediatas para a privacidade: senhas fortes, navegador Tor, Signal, email em servidor seguro, criptografia de dispositivo.
Data Detox: reduzir sua sombra digital e ter controle do que está exposto.
Tecnopolítica: valores e bytes, rede de confiança, resistência e existência
Análise de contexto, ameaças e riscos

OPERAÇÃO:

Para que uma política pública funcione sem o Estado, é preciso definir uma população alvo e buscar atingir uma massa crítica de agentes. Os coletivos iniciais não devem acumular mais poder do que já possuem; pelo contrário, à medida que agentes multiplicam o conhecimento, novos coletivos aparecem e dividem a responsabilidade, a pesquisa e a definição das ações, buscando que as decisões sejam tomadas cada vez mais de baixo e de perto. Nunca será demais repetir: a concentração de poder continuada é extremamente nociva para o objetivo final de Autonomia e o projeto deve ser abandonado caso persista.

Etapas:

  1. Refinar o projeto: debater, pontuar falhas e achar mecanismos de proteção das partes que possuem poder hoje contra “degringolamento egoico”
  2. Definir, reunir e montar um material básico para a formação
  3. Fazer uma campanha de engajamento nessa política pública junto aos outros coletivos
  4. Realizar formações e acompanhar agentes
  5. Auxiliar na formação de coletivos de segurança
  6. Coletivos originais vazam

13 formas de agressão online contra mulheres

25/11/2018
Por Luchadoras, Social TIC e APC

https://www.genderit.org

Acesso ou controle não autorizado
Ataques ou restrição de acesso a contas ou dispositivos de uma pessoa

Monitoramento e stalking
Vigilância constante da vida online de uma pessoa

Ameaças
Conteúdos violentos, lascivos ou agressivos que manifestam uma intenção de dano a alguém, a seus entes queridos ou bens

Difamação
Desqualificação da trajetória, credibilidade ou imagem pública de uma pessoa através da exposição de informação falsa, manipulada ou fora de contexto

Omissões po parte de atores com poder regulatório
Falta de interesse, reconhecimento, ação ou menosprezo por parte de autoridades, intermediários da internet, instituições ou comunidades que podem regural, solucionar ou sancionar violência online

Controle e manipualção da informação
Roubo, obtenção, perda de controle ou modificação de informação de forma não consentida

Expressões discriminatórias
Discurso contra mulheres e pessoas não binárias que reflete padrões culturais machistas baseados em papéis tradicionais de gênero

Difusão de informação pessoal ou íntima
Compartilhar ou publicar sem consentimento algum tipo de informação, dados ou informação privada que afete uma pessoa

Abuso sexual relacionado com a tecnologia
Exercício de poder sobre uma pessoa a partir da exploração sexual de sua imagem e/ou corpo contra sua vontade, pode implicar a obtenção de um benefício lucrativou ou de outro tipo

Suplantação ou roubo de identidade
Uso ou falsificação da identidade de uma pessoa sem seu consentimento

Assédio
Condutas de caráter reiterado e não solicitado que acabam sendo incômodas, perturbadoras ou intimidantes

Extorsão
Obrigar um pessoa a seguir a vontade ou petições de um terceiro por possuir algo de valor para ela, como no caso de informação pessoal

Ataques a canais de expressão
Táticas ou ações deliberadas para tirar ou deixar fora de circulação canais de comunicação ou expressão de uma pessoa ou grupo

Depois de dois anos seguindo e acompanhando mulheres que vivem o que chamamos de violência online, violência cibernática ou violência digital, Luchadoras, Social TIC organizações sociais sediadas no México, e a Asociación por el Progreso de las Comunicaçciones, elaboraram a seguinte tipologia que dá conta de 13 formas distintas de agressão contra as mulheres através das tecnologias.

Quatro considerações básicas

1. O que entendemos por “violência online” são na realidade práticas muito diversas que através da vigilancia, do controle ou da manipulação da tua informação ou de teus canais de comunicação tem como objetivo causar dano.
2. Não está desconectada da violencia machista que vivemos nas ruas, nas casas, nas camas; quer dizer não existe uma separação online/offline e é tão real como qualquer outra forma de violencia. É um mesmo velho sistema que usa novas plataformas.
3. Em um mesmo caso de violencia online podem se manifestar uma série de agressões distintas. Nessa tipologia decidimos nomear todas elas.
4. Por si mesmas, nenhuma agressão é mais grave que outras e tampoucou são necesssariamente uma escala que vai de menor a maior, mesmo que em alguns casos sim elas podem ser interdependentes ou uma engendrar a outra.

Por exemplo: Alguém rouba teu celular. Encontra fotos intimas em teus arquivos. Te escrevem uma mensagem pedindo dinheiro em troca de não publicá-las. Não cedes. Esse alguém decide colocá-las online e te marca. As pessoas começam a te insultar e a te dizer que estavas pedindo. Denuncias e nao recebes uma boa resposta de parte das plataformas nem das autoridades.

O que foi que aconteceu?

– Alguém rouba teu celular -> Acesso nao autorizado
– Encontra fotos intímas nos teus arquivos -> Controle da informação
– Te escrevem uma mensagem pedindo dinheiro em troca de não publicá-las -> Extorsão
– Não cedes. Esse alguém decide colocá-las online e te marca. -> Difusão de informação intima sem consentimento.
– As pessoas começam a te insultar e a te dizer que estavas pedindo. -> Expressões discriminatórias.
– Denuncias e nao recebes uma boa resposta de parte das plataformas nem das autoridades. -> Omissão por parte de atores com poder regulatório.

Para a elaboração dessa tipologia, foram revisados os tipos de ataques online contra as mulheres enunciados por organizações como Asociación para el Progreso de las Comunicaciones, Article 19, Cimac, Digital Rights Foundation, Women’s Media Center, e Women Action Media, assim como de processos como Coming Back to Tech de Tactical Tech Collective.

Nova Seção – Mariscotron Tira Dúvidas

 

Criamos uma nova seção no site chamada “Mariscotron Tira Dúvidas”. Nessa seção abrimos um canal direto para tirarmos dúvidas e conversarmos sobre cultura de segurança, segurança da informação, comunicação segura, tecnopolítica ou tecnologia em geral.

Esses tempos de rápidas mudanças no contexto político nacional tem gerado muita incerteza e ansiedade. Em função disso muitas dúvidas e inseguranças tem vindo a tona, em especial nos campos da segurança e autodefesa digital. Por isso, mais do que nunca, é importante que os coletivos e indivíduos que buscam transformar a sociedade de alguma maneira estejam atentos buscando aperfeiçoar suas práticas de forma a agir melhor preservando a sua integridade e das pessoas a sua volta.

Acesse a seção aqui e adicione suas perguntas ou comentários, ou acesse diretamente o bloco de notas virtual aqui.

 

Nova Seção – Mariscotron Tira Dúvidas

 

Criamos uma nova seção no site chamada “Mariscotron Tira Dúvidas”. Nessa seção abrimos um canal direto para tirarmos dúvidas e conversarmos sobre cultura de segurança, segurança da informação, comunicação segura, tecnopolítica ou tecnologia em geral.

Esses tempos de rápidas mudanças no contexto político nacional tem gerado muita incerteza e ansiedade. Em função disso muitas dúvidas e inseguranças tem vindo a tona, em especial nos campos da segurança e autodefesa digital. Por isso, mais do que nunca, é importante que os coletivos e indivíduos que buscam transformar a sociedade de alguma maneira estejam atentos buscando aperfeiçoar suas práticas de forma a agir melhor preservando a sua integridade e das pessoas a sua volta.

Acesse a seção aqui e adicione suas perguntas ou comentários, ou acesse diretamente o bloco de notas virtual aqui.

 

Porque é que hoje nenhuma revolução é possível?

PORQUE É QUE HOJE NENHUMA REVOLUÇÃO É POSSÍVEL? por BYUNG-CHUL HAN

Num debate entre mim e António Negri, que ocorreu há cerca de um ano no Berliner Schaubühne, confrontaram-se duas críticas bem distintas do Capitalismo. Negri estava confiante com a ideia de uma resistência global ao “Império”, ao sistema neoliberal de dominação, apresentando-se a si mesmo como um comunista revolucionário e referindo-se a mim como um académico céptico. Acreditava, enfaticamente, que a “multitude”, as massas interconectadas do protesto e da revolução, iriam ser capazes de fazer cair o “Império”. A posição do comunista revolucionário pareceu-me muito ingénua e afastada da realidade. Por isso, procurei explicar a Negri porque é que hoje a revolução já não é possível.

§

Porque é que o sistema de dominação neoliberal é tão estável? Porque é que há tão pouca resistência? Porque é que toda a resistência, quando ocorre, se desvanece tão rapidamente? Porque é que já não é possível a revolução, apesar do crescente fosso entre ricos e pobres? Para explicar este estado de coisas é necessária uma compreensão adequada de como funcionam hoje o poder e a dominação.
Quem pretender instalar um sistema de dominação deve eliminar toda a resistência e o mesmo se aplica ao actual sistema de dominação neoliberal. Estabelecer um novo sistema de dominação requer um poder que se impõe frequentemente através da violência. Contudo, esse poder não é idêntico àquele que estabiliza o sistema internamente. Como é bem sabido Margaret Thatcher, pioneira do neoliberalismo, tratava os sindicatos como “inimigos internos” e combateu-os violentamente. Contudo, não devemos confundir a intervenção violenta que impõe a agenda neoliberal com um poder de estabilização ou manutenção do sistema.

O poder de estabilização do sistema não é repressivo mas sedutor
O poder de estabilização da sociedade industrial e disciplinar era repressivo. Os operários eram brutalmente explorados pelos proprietários, o que originava actos de protesto e de resistência. Nesse momento, foi possível que uma revolução derrubasse as relações de produção existentes. Nesse sistema de repressão tanto os opressores como os oprimidos eram visíveis. Havia um adversário concreto – um inimigo visível – ao qual se oferecia resistência.
O sistema de dominação neoliberal tem uma estrutura completamente distinta. Hoje, o poder que estabiliza o sistema já não funciona através da repressão, mas através da sedução – isto é, cativando. Já não é visível, como no caso do regime disciplinar. Hoje, não há um adversário concreto, um inimigo, que nos retire a liberdade e ao qual se possa resistir.

O neoliberalismo transforma o trabalhador oprimido num empresário livre, um empreendedor de si mesmo. Hoje, cada um de nós é um trabalhador que se explora a si próprio na sua própria empresa. Cada um de nós é mestre e escravo na sua mesma pessoa. E também a luta de classes se transforma em luta interna de cada um consigo próprio. Hoje, aqueles que não conseguem atingir o sucesso culpam-se a si próprios e sentem-se envergonhados. As pessoas vêem-se a si próprias como o problema e não a sociedade.

O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão
Um poder disciplinar que procura colocar o ser humano debaixo de um colete-de-forças de ordens e proibições é totalmente ineficiente. Pelo contrário, é significativamente mais eficiente assegurar que as pessoas se submetam de espontânea vontade à dominação. A eficácia que define o actual sistema advém do facto de operar não tanto através da proibição e da privação, mas procurando agradar e satisfazer. Em vez de gerar homens obedientes, esforça-se por torná-los dependentes. Esta lógica da eficiência neoliberal aplica-se igualmente à vigilância. Nos anos 80, para citar um exemplo, houve protestos veementes contra o censo demográfico alemão. Até os estudantes saíram à rua.
Do ponto de vista actual, a informação solicitada no censo – profissão, níveis de educação, distância de casa ao trabalho – parece quase ridícula. Mas naquela altura o Estado era visto como uma instância de dominação que retirava informação aos cidadãos contra a sua vontade. Essa época há muito que ficou para trás. Hoje expomo-nos de livre vontade. É precisamente este sentido de liberdade que torna qualquer protesto impossível. Ao contrário daquilo que acontecia nos dias do censo, hoje dificilmente alguém protesta contra a vigilância. O livre desnudamento e a auto-exposição seguem a mesma lógica da eficiência como livre auto-exploração. Protesta-se contra quê? Contra si próprio? A artista conceptual Jenny Holzer formulou o paradoxo da actual situação: “Protect me from what I want” [“Protege-me daquilo que quero”].

É importante distinguir entre um poder que impõe e um poder que estabiliza. Hoje, o poder que estabiliza o sistema assume um disfarce amigável e smart, tornando-se invisível e inatacável. O sujeito submetido nem sequer tem consciência da sua submissão. O sujeito pensa-se livre. Esta técnica de dominação neutraliza a resistência de modo eficaz. A dominação que reprime e ataca a liberdade não é estável. Por isso o regime neoliberal é tão estável, ele imuniza-se contra toda a resistência porque faz uso da liberdade em vez de a reprimir. Suprimir a liberdade provoca imediatamente resistências, explorar a liberdade não.
Depois da crise financeira asiática, a Coreia do Sul estava paralisada e em choque. O FMI interveio e disponibilizou crédito. Em troca, o governo teve que impor uma agenda neoliberal. Isto foi iminentemente repressivo, poder impositivo – o tipo de poder que frequentemente é acompanhado de violência e que se distingue do poder de estabilização do sistema que procura sempre passar como liberdade.

De acordo com Naomi Klein, o estado de choque social que se segue a catástrofes como a crise financeira na Coreia do Sul – ou a actual crise na Grécia – oferece a oportunidade de reprogramar radicalmente a sociedade pela força. Hoje, quase não há qualquer resistência na Coreia do Sul. Bem pelo contrário: um consenso generalizado prevalece – assim como a depressão e o esgotamento. A Coreia do Sul tem hoje a mais alta taxa de suicídio do mundo. As pessoas agem violentamente sobre si próprias em vez de procurarem mudar a sociedade. A agressão dirigida para fora, que implicaria a revolução, foi substituída pela auto-agressão dirigida contra si próprio.
Hoje, não há uma multitude cooperante e conectada capaz de se levantar numa massa global de protesto e revolução. Pelo contrário, o modo dominante de produção baseia-se em empreendedores isolados e solitários, alheados de si próprios. Antes as empresas costumavam competir entre si. Contudo, dentro de cada empresa, era possível encontrar solidariedade. Hoje, todos competem contra todos, inclusive, dentro da mesma empresa. Apesar da competitividade aumentar a produtividade, esta destrói a solidariedade e o sentido comum. Nenhuma massa revolucionária pode surgir de indivíduos exaustos, depressivos e isolados.

O neoliberalismo não pode ser explicado em termos marxistas. No neoliberalismo não tem sequer lugar a “alienação” do trabalho. Hoje, mergulhamos euforicamente no trabalho – até ao esgotamento. O primeiro nível da síndrome de Burnout [esgotamento] é a euforia. Esgotamento e revolução excluem-se mutuamente. Assim, é um erro pensar que a Multitude poderá derrubar o “Império parasitário” e construir uma ordem social comunista.

A economia de partilha leva à total mercantilização da vida
Qual é o estado actual do comunismo? Há hoje uma invocação constante da noção de “partilha” [sharing] e de “comunidade”. A economia de partilha parece substituir a economia da propriedade e da posse. Sharing is Caring [partilhar é cuidar] é a máxima da empresa “Circler”, no mais recente romance de Dave Egger: partilhar é curar, por assim dizer. Os passeios que levam até à sede da empresa estão cheios de máximas como “Comunidade Primeiro” e “Humanos trabalham aqui”. Mas o verdadeiro mote deveria ser: “cuidar é matar”
Centros de boleias digitais, que nos transformam a todos em taxistas, são igualmente divulgados com apelos à comunidade. Mas é um erro afirmar – como faz Jeremy Rifkin no seu mais recente livro, The Zero Marginal Cost Society – que a economia de partilha anuncia o fim do capitalismo inaugurando uma ordem social orientada para o comum, onde partilhar tem mais valor que possuir. O que acontece é precisamente o oposto: a economia de partilha leva, em último caso, à total mercantilização da vida.

A mudança que Rifkin celebra – da posse para o acesso – não nos liberta do capitalismo. As pessoas sem dinheiro continuam a não ter acesso à partilha, ao sharing. Mesmo na idade do acesso, continuamos a viver dentro daquilo que Didier Bingo chamou o “Ban-opticon”, onde aqueles sem meios económicos permanecem excluídos. “Airbnb” – o mercado comunitário que faz de cada casa um hotel – fez da hospitalidade uma mercadoria, um bem de consumo.
A ideologia da “community” [comunidade] e dos “collaborative commons” [bens comuns colaborativos] levam à total mercantilização da comunidade. Tornou-se impossível uma amabilidade desinteressada. Numa sociedade de valorização recíproca e permanente, também a amizade se tornou comercializável. Tornamo-nos amáveis para obteremos melhores avaliações.

A dura lógica do capitalismo prevalece mesmo no coração dessa economia de partilha. Paradoxalmente, neste tão simpático “partilhar” ninguém dá nada a ninguém voluntariamente e de graça. O capitalismo realiza-se plenamente no momento em que vende o comunismo como mercadoria. O comunismo como mercadoria é o fim da revolução.

Nota da edição
Texto traduzido a partir da versão alemã (com auxílio da versão inglesa e espanhola) publicado originariamente no Süddeutsche Zeitung, a 3 de Setembro de 2014.
).

Byung-Chul Han
Filósofo Sul-Coreano e professor na Universität der Künste Berlin (UdK).

Ficha técnica
Data de publicação: 2 de Dezembro de 2015

Perspectivas Anarquistas sobre a Neutralidade da Net: O Cerceamento Digital dos Bens Comuns

 

Na semana passada, a FCC (Comissão Federal de Comunicações, da sigla em inglês) votou para revogar a Neutralidade da Net nos EUA. Sem essas proteções, as corporações privadas – e a classe que as controla – pode moldar qual a informação fica disponível para as pessoas de acordo com seus próprios interesses. Imagina um futuro onde o conteúdo amplamente disponível na internet é comparável com o que você podia assistir na televisão aberta nos anos 1980! Hoje, os fluxos de informação na internet são quase idênticos com os nossos processos de pensamento coletivo: eles determinam o que podemos discutir, o que podemos imaginar. Mas o problema fundamental é que a internet sempre foi controlada pelo governo e pelas corporações.

É muito representativo que o setor privado tenha transformado de forma progressiva uma estrutura de desenvolvimento militar comparativamente mais horizontal em algo menos participativo e igualitário. Infelizmente, não existe uma alternativa anarquista, uma internet das pessoas para construir em cima; essa é a única. Socialistas de Estado aproveitaram essa oportunidade para promover a nacionalização da internet, argumentando que essa é uma oportunidade de formular uma visão de um futuro melhor. Mas se não queremos que a classe capitalista controle nossa comunicação, o controle pelo Estado não solucionará o problema: afinal é o Estado que está pondo as corporações no controle, e os modelos existentes de controle estatal (pense na China) são tão opressivos quanto os corporativos. Devemos tomar passos pragmáticos para defender nossos direitos no contexto atual. Porém, um quadro baseado em direitos mas que atribui ao Estado um papel de árbitro de questões sociais nunca irá garantir nossa liberdade. Se queremos uma visão verdadeiramente libertária de um futuro melhor, temos que pensar para muito além disso.

Uma abordagem anarquista deve começar por rejeitar a falsa dicotomia entre poder das corporações e poder estatal. A partir daí, precisamos ousar sonhar com formas descentralizadas de infraestrutura que sejam resilientes contra controle de cima para baixo. A internet, na sua forma atual, é de fato indispensável para participar da sociedade; mas isso não significa que devemos tomar a forma atual da internet – ou da sociedade – como o único ou o melhor modelo que existe. Até porque, foram nossos recursos, extraídos de nós na forma de impostos, mão de obra e inovação que ajudaram a criar ambos. O que seríamos capazes de criar se nossos esforços não fossem moldados pelas amarras do Estado e os imperativos do mercado?

Nosso objetivo de longo prazo deveria ser retomar as estruturas que ajudamos a construir, mas teremos que transformá-las para que funcionem de acordo com os nossos interesses – e também podemos começar a experimentar com estruturas paralelas agora mesmo. Até reformistas devem reconhecer que fazer isso é praticamente a única forma de ganhar influência sobre aqueles que hoje controlam os meios pelos quais nos comunicamos.

A tecnologia nunca é neutra. É sempre política: sempre expressa e reforça as dinâmicas de poder e aspirações que estiveram lá desde o início. Se engenheirxs e programadorxs não constroem a partir de um enfoque político com a intenção explícita de criar relações igualitárias, seu trabalho sempre será usado para concentrar poder e oprimir as pessoas.

Para saber mais sobre as limitações codificadas no cerne do mundo digital pelo capitalismo, leia Desertando a Utopia Digital. Para detalhes sobre o fim da Neutralidade da Net e as alternativas radicais ao controle corporativo, leia o seguinte texto de Willian Budington, também entrevistado pelo audiozine The Final Straw.

Texto original em crimethinc.com/2017/12/15/anarchist-per…

[Livro] A Internet Como uma Nova Cerca e Outros Textos

Talvez você já tenha lido sobre o programa Prism, através do qual a Agência de Segurança Nacional dos E.U.A. (NSA) tem coletados dados da Microsoft, Google, Facebook, Apple e outras grandes corporações da Internet.

Lembre-se que esta é apenas a ponta do iceberg. Não temos como saber quantos projetos similares estão enterrados mais profundamente no aparato do estado de vigilância (e em cada país), que não foram revelados por ousados delatores. Nós sabemos que todo dia a NSA intercepta bilhões de e-mails, ligações telefônicas e outras formas de comunicação. E o que eles podem monitorar, eles podem censurar, ao estilo China ou Mubarak.

Muitas pessoas têm promovido a internet como uma oportunidade para criar novos bens comuns, recursos que podem ser compartilhados ao invés de posse privada. Mas face ao poder cada vez maior do Estado e das corporações sobre as estruturas através das quais interagimos online, temos que considerar a possibilidade distópica de que a internet representa uma nova cerca ao bens comuns: a canalização da comunicação em formatos que podem ser mapeados, patrulhados e controlados.

Um dos eventos que serviu de base para a transição ao capitalismo foi o cercamento dos bens comuns, através do qual a terra que antes era usada livremente por todas as pessoas foi tomada e transformada em propriedade privada. De fato, este processo repetiu-se diversas vezes ao longo do desenvolvimento do capitalismo.

Parece que não conseguimos reconhecer os “bens comuns” a menos que estejam ameaçados com o cercamento. Ninguém pensa na canção “Parabéns Pra Você” como um bem comum, pois a Time Warner (que alega possuir os direitos autorais) não teve sucesso em lucrar com toda a cantoria em festinhas de aniversário. Originalmente, camponeses e povos indígenas também não viam a terra como propriedade em comum — pelo contrário, eles consideravam absurda a ideia de que a terra poderia ser propriedade de alguém.

Seria igualmente difícil, há apenas algumas gerações atrás, imaginar que um dia se tornaria possível exibir anúncios publicitários para as pessoas sempre que elas conversassem juntas, ou mapear seus gostos e relações sociais num piscar de olhos, ou acompanhar suas linhas de raciocínio em tempos real ao monitorar suas buscas no Google.

Sempre tivemos redes sociais, mas ninguém podia usá-las para vender anúncios — nem elas eram tão facilmente mapeadas. Agora, elas ressurgem como algo que nos é oferecido por corporações, algo externo a nós e que precisamos consultar. Aspectos de nossas vidas que antes nunca poderiam ter sido privatizados agora estão praticamente inacessíveis sem os últimos produtos da Apple. A computação em nuvem e a vigilância governamental onipresente somente enfatizam a nossa dependência e vulnerabilidade.

Ao invés de ser a vanguarda do inevitável progresso da liberdade, a internet é o mais novo campo de batalha de uma disputa secular com aqueles que querem privatizar e dominar não apenas a terra, mas também todos os aspectos do nosso ser. O ônus da prova de que a internet ainda oferece uma fronteira para que liberdade avance está sobre aquelas pessoas que têm a esperança de defendê-la. Ao longo desta luta, pode se tornar claro que a liberdade digital, como todas as formas importantes de liberdade, não é compatível com o capitalismo e o Estado.

Baixe aqui o livreto com esse texto além de “O Capitalismo Digital, a Economia da Atenção e o Estado de Vigilância” e “Desertando a Utopia Digital: Computadores contra a computação”. Todos esses textos foram escritos pelo coletivo CrimethInc. e recentemente traduzidos para o português. Os três textos trazem uma análise da transformação pela qual a internet está passando, uma mudança agressiva em direção à uma rede totalmente vigiada e privatizada.