Caminhada Do Silêncio: contra o Golpe Militar de 64 (1 de Abril)

55 anos do Golpe de 1964:
Muitos mortos, desaparecidos e torturados no Brasil.
Nunca vamos esquecê-los!
Para que nunca mais aconteça!
Evento organizado pelo Coletivo Memória, Verdade, Justiça e Marcha Mundial de Mulheres
Venham de preto.
Concentração a partir das 16h, saída da Caminhada do Silêncio às 17:30 pelo centro de Floripa terminando na Alesc para lançamento de livro.

Audiência Pública Contra Violência Policial 27/03

Temos presenciado um enorme aumento da violência policial, especialmente após a posse desse novo governo golpista.
O Brasil é o país que mais mata no mundo, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Diversas vezes , vimos cenas de guerra em nossas cidades, com invasões de casas, bares, atividades culturais e religiosas, comunidades especialmente onde a maioria é mulher negra, universidade, manifestações públicas…

Mas continuamos em pé na luta pelo Direito à moradia, ao transporte público, à saúde, educação, à cultura e lazer.
Contra o genocídio de nossa juventude negra, a Violência as/os LGBTI, mulheres, moradores de ocupações, de periferia e em situação de rua.

A violência contra o povo é uma marca do Brasil. Mas a resistência também acompanha a nossa história de luta.

Por isso convidamos todas e todos para , dia 25 de março (segunda-feira) , participar da CAMINHADA DE DENÚNCIA E CONVITE , partindo as 15:30h da Catedral, chamando a população para AUDIÊNCIA PÚBLICA CONTRA A VIOLÊNCIA POLICIAL, que ocorrerá dia 27 (quarta- feira) às 18:30h no auditório Antonieta de Barros na ALESC -Assembleia Legislativa SC.

Manifesto: Odeia a Mídia? Então Retome a Mídia!

O ano é 1999, em Seatle nos EUA os protestos contra a reunião da Organização Mundial do Comércio reúnem milhares de pessoas. O movimento de resistência contra a globalização neoliberal, vendida como a utopia capitalista pelos donos do mundo após a queda do muro de Berlim, estava em uma crescente.

A repressão estatal foi intensa, 500 pessoas foram presas e a guarda nacional foi convocada. A mídia corporativa do mundo todo repetia em uníssono o discurso da deslegitimação das manifestações através do foco nos atos de vandalismo contra os símbolos do capital.

“A mídia mente, precisamos da nossa própria mídia.” Assim pensaram aquelas e aqueles que participaram dos protestos. Precisamos divulgar e cobrir nossas ações, encontrar nossa linguagem e os meios para difundi-la. Era o germe do Centro De Mídia Independente, uma rede autônoma de organizações de mídia livre, uma teia de coletivos espalhados pelo mundo, com linguagem própria e que batia de frente com a hegemonia capitalista.

As Zapatistas e suas cores, nas montanhas de Chiapas serviam como inspiração para os “Outros Mundos” que sonhávamos construir: “Nosso sangue e nossas palavras acenderam um pequeno fogo na montanha e o levamos rumo à casa do poder e do dinheiro. Irmãos e irmãs de outras raças e outras línguas, de outra cor e mesmo coração, protegeram a nossa luz e dela acenderam seus respectivos fogos.”, diziam.

Cérebros, multicoloridos, sintonizam, emitem e comunicam para longe. Este impulso internacionalista e libertário teve ecos na América Latina e no Brasil, se mesclando ao caldo de experiência anteriores. O movimento de Rádios Livres no Brasil questionava o monopólio do espectro eletromagnético pelo Estado, entregando enormes fatias para empresas e igrejas, e migalhas para a comunicação comunitária e seus transmissores de baixa potência. Contra isso só havia uma saída: nos organizarmos em coletivos e colocar nossas próprias rádios no ar em um ato de desobediência civil. Na Argentina, companheir@s iam mais longe, e ministravam oficinas de montagem de transmissores, e até construíram uma estação de televisão livre em um prédio ocupado durante os protestos de 2001, no chamado Argentinazo.

O espírito criativo e rebelde do “faça você mesmo” estava presente nas mais diversas iniciativas. O movimento do Software Livre influenciou muita gente que construía estes espaços, com suas ideias de conhecimento aberto, construção coletiva e de adaptação de ferramentas para as necessidades locais. Coletivos ligados a tecnologia como o Riseup surgiram nesta maré, fornecendo até hoje plataformas baseadas em software livre em servidores autônomos para coletivos de ação pela transformação social.

Vinte anos depois, cabe nos perguntarmos, Onde estamos?

O mundo se afunda em uma disputa geopolítica entre EUA, China e Rússia. A crise climática e as ondas de refugiados são uma realidade, e extrema-direita cresce no mundo todo. Os EUA são governados por Trump e o Brasil por um sujeito que rasga elogios a ditadores e torturadores. O povo Curdo, luta cada vez mais isolado por uma revolução em territórios arrasados pela guerra civil e a Venezuela pode ser a próxima Síria. O próprio Capitalismo encontra-se em um campo de batalha na disputa pelo controle dos Estados, entre as antigas facções do neoliberalismo e as novas mais à direita que negam o “globalismo” e defendem nacionalismos chauvinistas, ressuscitando os fantasmas do fascismo.

E a mídia tem um grande peso neste cenário distópico.

Os governos latino-americanos da onda “progressista” pouco fizeram para mudar a realidade da mídia hegemônica em seus países. E nós, do lado autonomista desta história, vimos nossas iniciativas minguarem pelos mais diversos motivos.

Nunca tivemos tanta gente com acesso a Internet, e os computadores, antes restritos a uma seleta parcela da população, agora estão disponíveis para as massas e cabem na palma da mão. A televisão ainda tem a audiência de 79% dos brasileiros, mas o consumo de notícias pelas “mídias sociais” tem aumentado: 91% dos brasileiros disseram usar a internet para se informar e 138 milhões de brasileiros têm celular, com 116 milhões de pessoas conectadas na Internet, segundo dados de 2017/2018.

Hoje até nossos avós podem fazer uma “live” apontando os problemas do posto de saúde do bairro. Mas o que vemos está bem longe da utopia da Internet como ferramenta de libertação, como muitos de nós sonhávamos. Fomos atropelados pelo crescimento de gigantescas corporações nascidas no vale do Silício, que centralizaram a produção e o consumo de informações em um pequeno grupo de serviços tão simples e massivos quanto bilhões podem comprar. A centralização nestas plataformas é tão grande que 55% dos brasileiros acham que o Facebook é a própria internet.

Nesta maré, a “nova direita” incentivada por bilionários como os irmãos Koch e Steve Bannon, ideólogo da extrema-direita mundial, nadou de braçada. Adaptaram a sua linguagem aos memes e compraram consultorias de empresas de engenharia social como a Cambridge Analytica, investindo muito dinheiro em publicidade. As esquerdas se adaptaram ao sistema, criando suas próprias bolhas dentro das plataformas corporativas e abandonaram seus próprios espaços de comunicação, como os sites e listas de e-mails.

Não estamos mais nos anos 2000 e os desafios para a mídia independente de esquerda (a necessidade deste adjetivo já é um sinal disto) são gigantescos.

Mas se aprendemos algo nestes últimos anos, é a dura constatação de que as Plataformas que utilizamos não são “neutras”, elas refletem os interesses e propósitos daqueles que as construíram, e estão embebidas de seus valores. Isto é evidente em tempos de vigilância em massa e algoritmos obscuros controlados por corporações.

Portanto, um princípio que já nos foi muito caro no passado, segue cada vez mais fundamental nestes tempos turbulentos: É necessário que tenhamos o máximo de conhecimento e controle sobre as tecnologias e as ferramentas que utilizamos. Software Livre ainda é essencial, mas também precisamos pensar no desenvolvimento de infraestruturas autônomas de comunicação e até em hardware livre.

Para além deste princípio, temos outros pontos emergentes a pensar para evitar que nossos esforços tenham resultados efêmeros:

  • O financiamento de nossas próprias iniciativas;
  • A socialização do conhecimento técnico para além de pequenos grupos de especialistas;
  • A possibilidade de integração/interação entre diferentes meios e ferramentas, inclusive as corporativas, para evitar a formação de guetos militantes;

Sem enfrentarmos estes problemas seguiremos discutindo superficialmente e no curto prazo apenas questões “práticas” como qual é o melhor aplicativo para alcançar seguidores ou se devemos impulsionar ou não o evento da próxima manifestação. Precisamos cada vez mais discutir Tecnopolítica e agir para retomar a mídia! Afinal de contas, já criávamos nossas próprias redes sociais muito antes do surgimento destes canalhas.

Por Capivara Vintage
Escrito no Verão de 2019

TI Morro dos Cavalos | 9 e 10 de março MUTIRÃO PARA A ESCOLA DA ALDEIA YAKA PORÃ

Seguindo a campanha de arrecadação de materiais para a Escola Guarani da Aldeia Yaka Porã, na Terra Indígena Morro dos Cavalos, convidamos todas e todos para somar nos trabalhos da reforma da escola e para terminar a construção da outra escola no mesmo lugar. A escola que precisa ser reformada é onde os alunos vão estudar e a outra é para fazer atividades culturais. O mutirão acontecerá nos dias 9 e 10 de março.

Pedimos para preencher esse formulário https://goo.gl/forms/FHCYRoYdBeKGvDjm1 porque há um limite de pessoas e para ajudar na organização desse momento. Além disso, é importante para o cuidado com com a entrada e saída de pessoas da Aldeia.

[IMPORTANTE] Como as refeições serão coletivas, pedimos uma contribuição mínima de R$25 para os custos dos alimentos (será servido café da manhã, almoço e janta em todos os dias). Quem não puder contribuir, só avisar no formulário para que possamos avaliar cada caso. Pedimos também que tragam prato, copo e talheres. Há ainda a possibilidade de dormir na aldeia e participar de uma noite deliciosa na fogueira com chimarrão. Para quem quiser dormir, importante trazer barraca e/ou colchonete, isolante térmico, saco de dormir etc.

Programação do #8M 2019

Programação da Greve Internacional de Mulheres – #8Marielle: Vivas, livres e resistentes em Florianópolis! No dia 8 de março, a partir das 6h da manhã em frente ao Ticen! Durante todo o dia, rodas de conversa, tendas temáticas, panfletagem, atividades artísticas. E a grande marcha das mulheres começa às 18h! Vamos todas!

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O 8M SC:

Pelo terceiro ano consecutivo, nos unimos às mulheres do mundo na Greve Internacional de Mulheres do dia 8 de março. Em Santa Catarina, convidamos você para o nosso #8Marielle, um dia de luto e memória, mas também de luta, resistência e denúncia. Ao mesmo tempo em que gritamos nas ruas o nome de nossas líderes assassinadas pelas milícias fascistas e exigimos justiça, celebramos o crescimento do levante feminista no Brasil e no mundo. Em toda parte, mulheres se unem e se erguem contra a opressão, promovendo alianças com as minorias e maiorias estigmatizados pelo poder patriarcal.

Homenageamos Marielle Franco, mulher negra e bissexual da periferia do Rio de Janeiro, ativista e vereadora, para mantermos viva a sua memória de luta. Ela atuou na defesa dos direitos humanos, denunciou a violência das polícias e das milícias no Rio de Janeiro e se tornou a voz de milhares de pessoas. Por essa razão, foi executada em um crime que há quase um ano permanece sem solução e sem condenados. Em 2019, o 8 de março é #8Marielle!

Todos os anos, centenas de mulheres são mortas no Brasil. Morrem assassinadas pelo machismo, pelo sexismo, pela lesbofobia, pela transfobia, pela bifobia. Morrem por seu compromisso com a luta por direitos, como Marielle, e por lutarem pela proteção de vítimas de violência sexual e por denunciarem esses crimes, como a ativista Sabrina Bittencourt, que sofreu perseguição e constantes ameaças de morte. Santa Catarina é dos estados brasileiros com mais registros de violência contra as mulheres e primeiro em denúncias de tentativa de estupro, segundo o anuário da violência de 2018. O Estado, por meio do Poder Judiciário machista, patriarcal, sexista e racista, falha em solucionar e prevenir tais crimes, demonstrando que nossas vidas não importam. Diante de tanta omissão e opressão, paramos. Pois, se nossas vidas não importam, que produzam sem nós!

Conheça a programação e participe da Greve Internacional de Mulheres!

Nota de solidariedade aos atingidos

Prestamos solidariedade à todxs xs atingidxs pelo rompimento da barragem de Brumadinho/MG.

Afirmamos que estamos, não somente com os trabalhadores atingidos e seus familiares, mas, com todos os humanos, não-humanos, com família ou sem família; atingidos por este crime brutal.

O que aconteceu hoje em Brumadinho não é consequência da impunidade de Mariana. É consequência de centenas de anos de elites saqueadoras e assassinas. É consequência de oposições astigmáticas e condescendentes a esta elite. É consequência do fetiche dos que desejam ter um “estado para chamar de meu”. Consequência de nossos machismos e racismos estruturantes. Da psicopatia social em que estamos mergulhados. Consequência de desmantelamentos e aparelhamentos de organizações de resistência. Consequência de silenciamentos como o silenciamento das insurreições de Junho de 2013. Pinheirinhos/São José dos Campos; Rafael Braga, Marielle Franco; os 23, Vitor Kaigang, Museu Nacional e de outros centenas de milhares de silenciamentos que deitamos sobre o colo do estado tutor e/ou às providências divinas. A lista é imensa e não temos a inocência, e/ou a má-fé, de reduzir este brutal crime de brumadinho à impunidade de Mariana.

Denunciamos este governo nefasto, abjeto e assassino; mas apontamos que este governo representado pela figura de seu presidente é sintoma de algo muito maior. Assim como denunciamos todos os anteriores governos, que podem, sem nenhuma dificuldade, serem apontados de biocidas, etnocidas, genocidas; atentando frequentemente e permanentemente e violentamente contra territorialidades, contra lutas por liberdade, indígenas, quilombolas, camponeses, periferias, pessoas em situação de rua, contra milhoes que vivem em extrema pobreza, marginalizados, abandonados à própria sorte.

Denunciamos atuação progressista, liberalista, aceleracionista, reformista, negacionista; seja ele da direita ou da esquerda que abrace estes fundamentos. Não será este estado governado por psicopatas sociais, nem os anteriores e nem nenhum estado que poderá encerrar estes crimes. Estes crimes somente serão encerrados com o fim do capital, com o fim desta democracia cínica.

Não pedimos a extinção da Vale. Pedimos a extinção da barbárie contra a natureza e contra nossos corpos. Tanto faz se a empresa que destrói é privatizada, multinacional ou estatal. O que deve estar no centro da discussão não é qual o melhor modo de se produzir, e sim qual modo de estar não destruirá vida.

Não pedimos que a sociedade abra os olhos, porquê não achamos que a sociedade está de olhos fechados. Não temos essa arrogância infantil em nossas mochilas.

Não importam as toneladas de provas contra a vale, provas não faltam, nunca faltaram, e estes que aí estão no governo (assim como os anteriores) reivindicarão averiguações e investigações e teu respeito pela ponta de um fuzil. Vermelhos e Verdes.

Brumadinho é um grande colapso. Mas, todos os dias, os dias inteiros, colapsos acontecem ininterruptamente, múltiplos, pequenos ou grandes; e vão se multiplicar, vão seguir. E queremos estar aonde?, fazendo o que?, Em tempos medíocres como estes que estamos vivendo, para o extraordinário acontecer, é preciso criá-lo.

O vocativo “Atenção, crime ambiental” não abarca a brutalidade invisível por trás dele. Por isto, pixamos em seu lugar outro: “Atenção, Deserto”. 

Contra todo estado e contra o capital, pois são práticas de morte e destruição.

Decolonizemos pensamentos.

Reafirmamos que estamos, não somente com os trabalhadores atingidos e seus familiares, mas, com todos os humanos, não-humanos, com família ou sem família; atingidos por este crime brutal.

Abraçados, unidos, solares; lutemos!

Liberdade!

Assine você também!

Fonte: https://telegra.ph/Nota-de-solidariedade-aos-atingidos-01-26

Apesar de você: Ocupar o centro velho implica em perguntar cidade para quem?

Músico foi atingido no abdômen por bala de borracha – Arquivo Pessoal/ND.

Dia 20 de janeiro, após o show do Los Desterros no Taliesyn guarnições da polícia militar foram a Rua Victor Meireles para dispersar um grupo de pessoas que estava cometendo o grave delito de cantar samba e conversar na rua.

Palmas e vozes cantando “Apesar de Você” foram suficientemente provocativas para desperta o ódio do policiais militares? Não sei, a música “Apesar de Você”, uma dura crítica a ditadura civil-militar que durou 21 anos e deixou marcas profundas na sociedade brasileira como a herança maldita de uma policia militar, pode ter sido o motivo para alguns policiais atacarem de forma sádica pessoas.

Ainda assim, acho que o motivo dessa merda toda que aconteceu dia 20/01/2019 tem sua historicidade refletida na conjuntura onde torturadores são chamados de heróis pelo Talibã Neoliberal no Bananistão (Brasil), algo que entre outras coisas, torna ainda mais forte o que são a Policia Militar e as Guardas Municipais: braços armados executores da política de amplos processos de higienização social e controle social armado dos centros urbanos.

Essa política de de higienização social e controle social armado se erradia por toda cidade em Florianópolis, não são parte do ideário de outra política, de nova política como gostam falar os empreendedores, viúvas da ditadura e de neofascistas do MBL, é mesma política dos anos 2000 que fez de Florianópolis laboratório para teste da política de segurança pública tolerância zero, na época governada pela clã Amin.

Ironia?
No dia 20, havia desde a tarde uma grande concentração de pessoas na região da Rua Vitor Meireles por causa o evento promovido pelo “Square Lab, o primeiro coworking a céu aberto do Brasil, um super projeto do Centro Sapiens que promete ocupar e promover, através da economia criativa, o espaço entre a antiga Escola Antonieta de Barros e o Museu da Escola Catarinense, no Centro de Floripa”. Onde a atração principal era a banda Franscisco El Hombre, conhecida por suas letras de contestação.
Por que irônico? Porque se estava justamente comemorando o lançamento um projeto que faz parte da nada transparente e nada democrática política dos gestores de empresas privadas do Centro Sapiens, a CDL e a Prefeitura, promotoras de higienização social.

O que aconteceu no Taliesyn?

O bar fechado meia hora antes por ordem da PM, antes chegarem com reforços com armas menos letais. O inicio das agressões policiais começaram com a baforada de gás de pimenta da PM no pessoal que cantava samba, totalmente despropositada. Vi um professor da rede estadual com o rosto coberto de spray de pimenta, e como se não fosse suficiente foram desferidos disparos a queima roupa lhe acertando em cheio e causando três lesões: duas na região próxima a axila e uma próxima ao pescoço. Qual o crime do professor, cantar e reclamar do primeira agressão?

Essa cena não te diz nada? A intenção não era dispersar as pessoas ou conter alguém mais exaltado, mas causar uma lesão corporal grave, daquelas que cegam de um olho, quebram ossos e dentes, como a gente já viu acontecer aqui na cidade tantas vezes.

Dali em diante foi uma correria, encontrei um jovem que havia recebido um tiro no braço, estava bem machucado; uma mulher que ao tentar fugir da PM caiu quebrando o dedo e ferindo o queixo; o relato de uma jovem que levou um cacetada na cabeça e teve o celular furtado pela PM ao tentar gravar o que estava acontecendo; e de um outro professor que levou um tapa no rosto tão forte que chegou a cair no chão e ficou com os lábios feridos. Outros relatos estão no Facebook e já foram publicados na imprensa local.

Durante a ação os policiais gritavam “Agora é Bolsonaro. Porra!” enquanto distribuíam cacetadas a torto a direito atiravam balas de borracha como se estivessem curtindo um carnaval antecipado, lembrando dos episódios na Lagoa, Santo Antônio e Sambaqui onde a PM fez nos carnavais passados verdadeiros fiascos.

Não foi a primeira vez que se escuta policiais gritando “Agora é Bolsonaro!” No fim de 2018, quando as pessoas estavam indo embora do GeoSamba, uma roda de samba dentro da UFSC na frente do Museu de Arqueologia, a policia chegou e distribuiu tiro, porrada e bomba aos gritos que expressam o que eles entendem em ter um completo cretino racista, homofóbico e autoritário como presidente: A liberdade de passar por cima da Constituição e das normas da própria corporação quanto aos procedimentos dos agentes da segurança pública e servidores públicos.

O “Agora é Bolsonaro” é isso aí… a democratização da porrada, não mais restrita as camadas mais pobres e vulneráveis e movimentos populares. Se essa violência institucional escandaliza, ela não surpreende.

A tempos que o sonho da nossa elite escravocrata de Floripa é se vingar de tudo e todxs que consideram uma ameaça ao sonho de uma cidade mais branca para turistas e moradores ricos. O sonho fez do Mercado Publico Municipal um lugar horroroso de concentração das classes médias brancas onde antes havia todo tipo de “gentes” curtindo samba e reggae. Um sonho que não está sendo implantado só pela porrada, mas também, pela prefeitura e o centro sapiens com um nome bonito de indústria criativa com requintes de gentrificação.

Resumindo e propondo ou as pessoas que convivem no centro passam a exigir transparência e participação popular nos processos de reforma urbana na cidade ou estamos na merda. Cantando ou não “Bolsonada”, os copos deles continuam cheios e nosso ainda andam vazios. O calor da rua não pode ser apenas na hora da celebração e da “fextinhaaa”, enquanto tantas pessoas passam frio morando nas ruas.

Ocupar a cidade implica em perguntar: cidade para quem?

Só o poder popular muda a cidade! É tudo nosso! Não deixem nossas revoltas serem gourmetizadas!

Raiva Urbana

Centro Sapiens, Capitalismo Selvagem

Está em curso um processo de higienização social e gentrificação do centro histórico de Florianópolis. Gentrificação é um termo que pode ser traduzido como o aburguesamento ou “gourmetização” de uma região da cidade como consequência de ações que aumentam o custo de vida no local, afastando antigos moradores e frequentadores.

Banner do Coletivo Santa Cecília SEM Minhocão, publicação Cidade para as pessoas ou para as empresas?

A reforma do Mercado Público com custo de R$ 10,7 milhões é uma das primeiras peças deste projeto iniciado pelo ex-Prefeito Cezar Souza Jr. (PSD) em 2015, o mesmo que queria entregar a simbólica Ponta do Coral para a Hantei construir seu gigantesco hotel-marina. A reforma elitizou o local e diminuiu o seu caráter popular com lojas, bares e restaurantes fora do contexto cultural e mais caros.

Bobs do Mercado Público, Culinária Local?

As obras de revitalização do largo da alfandega que estão em curso com orçamento de R$ 8 milhões vão na mesma pegada. Percebam o uso da palavra “revitalização”, para trazer “nova vida” no local, palco tradicional de tantas manifestações políticas e também culturais como a Batalha de Alfandega que todas as quintas reúne jovens da periferia da cidade que ali duelam com ritmo e poesia (RAP), como narrado no documentário A Causa é Legítima: A Batalha da Alfândega é o Direito à Cidade.

Batalha da Alfândega, após repressão da Policia Militar
Projeto do novo Largo da Alfândega,

Mas a cereja do cupcake neste processo é o “Centro Sapiens”, um projeto de revitalização da área leste do Centro Histórico (novamente a palavrinha mágica) encabeçado em 2015 pelo Sapiens Parque em conjunto com a Prefeitura. O projeto pretende transformar a região em um polo de inovação e empreendedorismo e conta com a participação de entidades patronais como a CDL (Câmara De Dirigentes Lojistas) e a ACIF (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis).

No mural, inspiração em Barcelona, Nova York e na “Cidade Pedra Branca” em Palhoça. O arame farpado não pode faltar.

Projetos como estes, inspirados em experiências “bacanas” como a do Vale do Silício nos EUA desconsideram estudos que destacam um panorama alarmante para a gentrificação associada ao setor de tecnologia e inovação: são 134 mil pessoas sem teto e duas décadas de gentrificação ocorrendo no estado da California que, sozinho, detém o 5º maior PIB do mundo. Problemas semelhantes ocorrem em países desenvolvidos como a Alemanha e Reino Unido, causando protestos dos moradores de bairros afetados por este empreendimentos.

(Arte de rua em Mission District, São Francisco, California. Créditos: torbakhopper)

Por aqui seria diferente? Nenhum grafite descolado, brechó chique ou hamburgueria vegana vai diminuir o impacto social causado pela especulação imobiliária na região.

Além disto, todas estes “projetos de revitalização” (Mercado Pública, Largo da Alfandega e Centro Sapiens) foram realizados sem qualquer debate com a população da cidade ou da região, com exceção dos setores que podem lucrar com eles e seus sócios políticos (nossos “representantes”). Nenhuma audiência pública, nenhum estudo sobre o impacto no aumento do custo de vida para as pessoas da região, nenhum diálogo com as manifestações culturais que já existem ali (como as batalhas de RAP, rodas de capoeira e de samba), e pior, nenhuma palavra sobre como a cidade vai lidar (e está lidando) com o dramático aumento no número de pessoas em situação de rua, afetadas pela crise geral em que o país se afunda.

Ser humano.

Pois bem, neste Domingo 20/01/19 para “celebrar essa conquista para nossa cidade” acontece o lançamento do “Square Lab – O Centro é a Nossa Praia” o primeiro “coworking a céu aberto do Brasil”, projeto do Centro Sapiens que vai levar um show da desconstruída banda “Francisco El Hombre” para o espaço entre a antiga Escola Antonieta de Barros e o Museu da Escola Catarinense. Levando muita gente questionadora e a esquerda festiva para o “Centro Sapiens” da cidade.

Pois bem, em tempos de cortes para tudo que é “social”, fica o questionamento de como o poder público vai lidar com “os indesejáveis” para este sonho californiano da “Capital da Inovação”. Fica aí um trechinho da música “Tá Com Dólar, Tá Com Deus”, da banda Francisco, El Hombre para dar a letra:

“Eita, fudeu
O dólar vale mais que eu
Vale mais que eu…”

Agora bora beber nossa cervejinha artesanal e cantar nossa canção de protesto, mas não sem esquecer alguns questionamentos:

Quem se beneficiará com estes projetos?
Quais os impactos na identidade cultural do local?
Quais os impactos para a vida dos ocupantes da região?
Que modelo de cidade queremos e qual o modelo de cidade o Capital quer empurrar para nós?

Por Carlos Alberto Silva Leminski
Coletivo Raiva Urbana

Para o Homem do Chifre, personagem icônico do centro de Florianópolis, quase enterrado como indigente em 2017.