Relato de agressão da Policia Militar de Santa Catarina aos Foliões em Santo Antônio de Lisboa

Santo Antônio de Lisboa, madrugada de terça de Carnaval. Por volta das 2 e 30 da manhã acabava a noite de folia após um bonito desfile de 25 anos do bloco Baiacu de Alguém, que no seu samba enredo não se omitiu e narrou alguns dos problemas e lutas de Desterro: a falta de transporte público integrado, o plano diretor, a moeda verde, a luta pela Ponta do Coral e pela Ponta do Sambaqui.

Todos já estavam indo para casa, as últimas barraquinhas fechavam. Parado na rua de paralelepípedos onde antes só havia festa e folia vi a Policia Militar começar a se movimentar e fechar a rua, formando um bloco. Eram uns 15 policiais, uns 3 da cavalaria e o restante a pé. De uma hora para outra eles começaram a avançar pela rua, cassetetes em punho, marchando naquela formação típica de legião romana, tão comum de se ver em manifestações populares.

Eles não pediam licença, empurravam quem não saísse das ruas sem que as pessoas fizessem uma mínimo esboço de violência. Quando chegaram perto da igreja vi alguns Policiais agredirem um rapaz com cacetadas. Foi então que alguém puxou o coro do “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Policia Militar”, que foi ecoado por muitos na praça. Um Policial foi até uma menina que gritava as palavras de ordem e começaram uma discussão. Um tempo depois senti os olhos lacrimejando, pois começaram a borrifar gás de pimenta na praça, como se estivessem dedetizando o lugar.

Na volta para o carro escutei um relato de um rapaz que contou que jogaram spray de pimenta próximo aos banheiros químicos com gente dentro. Minha amiga, moradora do bairro me contou que todo ano é a mesma coisa. Que a Polícia atua desta forma para “encerrar” a festa, e que foi embora dali logo que percebeu a movimentação dos “homens da lei”.

Foram cenas lamentáveis e desnecessárias de brutalidade e estupidez do Estado. Qual a finalidade desta brutalidade? Se os organizadores sabem que isso acontece todos os anos, por que não se manifestam? O clima de insegurança em outros anos justifica tamanha agressividade?

Em temerários tempos de “Ordem e Progresso” os blocos de rua do Carnaval, essa festa anárquica por excelência seguem sendo um incomodo para ordem vigente. Mesmo em tempos em que uma única marca de cerveja compra a cidade por alguns dias, em tempos de cercadinhos em espaços públicos, de pulseirinhas VIPs, de peixadas e feijoadas de gente besta e esnobe.

Como diria Leminski: “Ainda vão me matar numa rua. Quando descobrirem, principalmente, que faço parte dessa gente que pensa que a rua é a parte principal da cidade”.

A briga dentro do Golpe

Alguns pitacos, Operação Abafa a Jato em curso: O editorial do Estadão malhando o Dallagnol, o Gilmar Mendes reclamando com um certo “atraso” das longas prisões preventivas da República de Curitiba, a indicação de Moraes e a revolta de agentes da PF contra o diretor-geral mostram que parte do status-quo se volta contra a operação. Afinal, ela já atingiu parte de seus objetivos: derrubar o governo eleito, destruir o PT e aniquilar a imagem pública da Petrobras, abrindo caminho para as privatizações e desmanche da política de conteúdo nacional. Só não conseguiram prender o Lula ainda, para garantir que se elegem em 2018. Levar a operação em frente agora vai levar todo o governo Temer e praticamente todos os partidos para o buraco e ferrar ainda mais a economia.

A ordem agora é segurar a onda para que consigam aprovar rapidamente a reforma da previdência e trabalhista, já que a PEC55 já passou. Resta saber até quando setores do Judiciário e da Policia Federal vão aguentar quietos, e até quando os grandes egos da República de Curitiba vão aguentar sem o brilho dos holofotes. Pode ser que a briga dentro do golpe traga bons frutos e escancare de vez toda a podridão, jogando mais lenha na fogueira.

As máscaras vão caindo

Vamos olhar para o lado bom das coisas. O lado bom dos últimos dias é que está tudo escancarado. A nomeação de Alexandre de Moraes foi narrada de forma protocolar pela Globo no JN, sem menção ao histórico autoritário e de violação de direitos humanos do ministro, apenas uma “pequena” controvérsia por ele ser filiado ao PSDB. No STF então nenhuma crítica, o nome foi aceito com tranquilidade pelos “guardiões da constituição”. Globo, STF, Temer, PSDB, coxinhas e fascistas, todos dançando conforme a música. Nomeação coerente com esse governo e esses tempos sinistros. Sem disfarces, a seco, sem cuspe.

Observação: Sem contar que ele foi advogado do Cunha, e existem suspeitas de ter defendido o PCC. Mas prefiro não ficar queimando advogados em tempos cada vez mais autoritários. Em breve podemos precisar deles.

às claras

Cada dia fica mais evidente a hipocrisia daqueles que apoiaram o golpe de 2016. Aqueles que se indignavam contra a nomeação de Lula como ministro no governo Dilma agora silenciam sobre a nomeação de Moreira Franco (PMDB), também indiciado pela Lava a Jato como ministro de Temer. Qual a diferença?

Eu sei bem qual é a diferença, conheço muitos de vocês, que viram seus candidatos serem derrotados democraticamente durante os últimos 13 anos, e que aguentaram remoendo ódio e rancor um ex-operário nordestino na presidência e depois uma ex-guerrilheira. Eu acompanhei todas as piadinhas racistas e machistas de vocês, eu presenciei toda a raiva e ignorância que tinham de programas sociais como bolsa família, minha casa minha vida ou cotas sociais. Não me enganam com esse moralismo de ocasião, pois sei que nas últimas eleições vocês votaram em candidatos de partidos que de santos não tem nada, tais como PSDB, DEM, PDMB, PP, etc.

A hipocrisia do moralismo seletivo de todos vocês está aí, escancarada. E não fiquem tranquilos, vivemos em um país extremamente desigual, toda a rede de proteção social que começou a ser construída e que agora está sendo desintegrada por este governo golpista trará profundas consequências sociais que acirrarão as contradições, provocando caos, desemprego e violência urbana. E seus muros com caco de vidro e sedans sem blindagem não protegerão vocês. Nem eu, mas pelo mesmo durmo com minha consciência tranquila por ter brigado com unhas e dentes para tentar reverter tudo isso. Já vocês, ficarão com o lugar reservado aos colaboracionistas na história, pelo seu silêncio com tamanha hipocrisia.

Até quando vamos tolerar o intolerável?

Hoje cerca de 50 pessoas conseguiram entrar na câmara dos deputados. Cantaram o hino nacional, gritaram “Viva Moro” disseram que os deputados querem implantar o comunismo e pediram Intervenção Militar. Conseguiram destaque na mídia, não levaram uma porrada da policia e “driblaram fácil” a segurança. Não se identificaram como grupo organizado, apesar de terem vindo de diversos estados e conseguido tamanha proeza que nenhum movimento social realizou em anos.

Em algum momento parece que foi aberta a caixa de pandora, liberando toneladas de ignorância politica, fascismo e estupidez que transbordam das caixas de comentário dos sites de noticias.

Me lembro que por volta de 2013 rolou uma marcha “por deus, pela família e contra o comunismo” em Floripa. Eram uns 15 velhinhos, e alguns jovens monarquistas e integralistas (sim, eles existem) na frente da quartel pedindo a volta da ditadura. Em 2015, nas manifestações “Contra a corrupção” (só a do PT, aparentemente) essa gente era tolerada numa boa nas marchas por pessoas que se dizem “liberais”, apesar de a mídia nunca mostrar que eles estavam lá. Em todas as marchas.

Agora essa galera está ai, ocupando a câmara, com evidente complacência e talvez até alguma ajuda de algum deputado fascista que vocês devem até saber o nome. Essa galera também está nas ocupações das escolas, tentando desocupar a força os estudantes, tirando fotos da galera e mandando para a policia, pichando suásticas e frases racistas em universidades e disputando DCEs e centros acadêmicos.

Me assusta a naturalidade que vamos levando coisas desse tipo. Me assusta mais ainda que ideias como essas sejam aceitas e repetidas por gente que eu conheço, inclusive familiares. Gente que passou anos compartilhando noticia sem saber a fonte, acreditando que o PT é “comunista” e tratando movimento social como banditismo.

Esse troço está indo longe de mais, até que ponto vamos tolerar o intolerável? O que podemos fazer para reverter essa onda de conservadorismo-fascistoide e estúpida que toma conta do mundo (até porque existe gente de direita inteligente e civilizada)?

O que transforma o velho no novo bendito fruto do povo será

Talvez estejamos tendo a maior onda de ocupações de instituições de ensino da história da humanidade. Sério, não é pouca coisa. São cerca de 170 universidades e mais de 1.000 escolas em praticamente todos os estados da federação. Não é de se estranhar que as ocupações causem tantas reações adversas. Afinal de contas, vivemos tempos de polarização extrema, uma polarização que na maioria das vezes é burra, porque esconde nuances e contradições.

Por exemplo, dizer que todos que estão ocupando são petistas doutrinados é algo que para mim beira ao ridículo. As entidades estudantis como a UNE, aparelhada a anos por partidos como o PCdoB não dão conta de explicar a onda de ocupações. Não tem toda essa força. Nem mesmo o PT tem tanto moral com a gurizada. Muitas delas ocorrem a revelia das ditas entidades de representação estudantil. São autônomas, ecos de uma explosão de ideias que repercutiu em parte da juventude que se rebelou 2013.

Outra reação é natural, daqueles que veem uma subversão da escola, afinal “estudante é para estudar”. Eu vou te dizer que a escola tem sim que ser subvertida, pois em última análise toda escola é uma ferramenta de doutrinação do estado a serviço do sistema vigente. As ocupações quebram essa lógica nem que seja temporariamente, colocando os alunos no controle, tendo que lidar com todos os problemas da gestão, os debates sobre a divisão de tarefas, as estratégias politicas, os próprios rumos do país, os embates com outros alunos, pais, professores, direção e polícia. Esses debates repercutem diretamente na família, nas comunidades. Só não repercutem na imprensa, que se converteu nesse órgão oficial de propaganda do governo Temer.

Ou seja, para mim, as ocupações de escolas são as sementes dessa geração do “não tem arrego”, aquela pontinha de esperança nesse país cada vez mais emburrecido de conservadorismo e neo-fascismo disfarçado de liberalismo. Toda força para a estudantada! Viva a primavera estudantil! O que transforma o velho no novo bendito fruto do povo será!

Deveria Ana Júlia entrar na “politica”, mesmo já fazendo Politica?

Algumas pessoas têm comentado após o sucesso do vídeo da Ana Júlia, secundarista do Paraná que botou os deputados no chão, “Nossa, essa menina deveria entrar na politica”.

Pois eu acho que ela já está na politica. Aliás, talvez ela tenha muito mais vivência politica, no sentido de cidadania, noção de comunidade e debate franco e aberto do que a maioria dos políticos profissionais.

Enquadrar essa juventude na politica tradicional/profissional e sua lógica de conquista do poder do Estado, suas gravatas, regras e regulamentos é tirar o que eles tem de melhor: sua combatividade, espontaneidade, criatividade e idealismo.

Para mim é cada vez mais claro que o Estado é uma máquina de moer sonhos, transformando gente idealista e revolucionária em burocratas e porta-vozes de governos (salvo raras exceções).

As peripécias da democracia rumo ao futuro digital

A democracia virou um valor. Dizem “precisamos democratizar a educação, a saúde, o cinema”, quando na verdade querem dizer “precisamos melhorar as coisas”. Tanto a democracia virou sinônimo de “bom” que ouve-se algumas pessoas dizerem, empolgadas com a descoberta, “chegou a hora de democratizar a democracia!”.

Para começar, a democracia é uma forma de governo. Toda a crítica que vem a seguir está baseada nesse fato. Não tem mistério: através de um contrato social, que ninguém nunca viu nem consentiu, todo mundo obrigatoriamente nasce cidadão; taí o Estado, e para esse trambolho funcionar, não precisaram inventar nada: simplesmente pegaram tudo o que já existia – exército, leis, dívida – e um novo conjunto de pessoas assumiu o governo e impôs: agora somos nós que mandamos em todos vocês.

Governar significa que “mandou, tá mandado”. Se não quiser obedecer, toma pau. Como se faz, então, para melhorar esse tipo de processo? Caso eu não queira ou não concorde com alguma ordem (lei, imposto, mudança), como podemos fazer para que eu seja preso ou sofra uma sanção de maneira mais eficiente?

O renascimento

Se formos olhar através do tempo, de fato, a democracia está se democratizando cada vez mais. A era de ouro da democracia, dizem, aconteceu quando uma cidade minúscula e escravocrata excluía as mulheres da tomada de decisão. Parece um ótimo começo. Aí passam-se dois mil e quinhentos anos sem ninguém falar nesse troço, até que meia dúzia de burgueses com a língua afiada resolve, para tentar conter a “multidão ensandecida” – ou seja, pessoas que queriam decidir por si mesmas sobre suas vidas -, ressuscitar esse elevado ideal ateniense impondo novamente: “tá, galera, agora vamos deixar vocês votarem em quem vai mandar a polícia bater em vocês.”

E não é que deu certo?! A gente olha pro globo terrestre e fica espantado: uau, todo mundo tá “adotando” a democracia. Mal dá para conter uma lágrima. Na verdade, a hegemonia política, conseguida na base da guerra constante, do terrorismo de Estado e da imposição econômica, é bastante sinistra. É justamente esse movimento de tornar todos iguais que eleva o controle democrático a um valor supremo. Não apenas #somostodosdemocratas como é melhor que não discutamos sobre isso. Foi o melhor que conseguimos, pra quê ficar voltando nesse assunto? Pois é assim que se naturalizam as opressões.

Não vejo como seria possível falar de democracia digital sem falar do que significa o projeto democrático e sua história. Agora, vejamos então quais são as propostas dos entusiastas da democracia para o futuro.

Os fundamentos

A ciberdemocracia ou democracia digital está assentada sobre dois pontos fundamentais. Primeiro: a internet. As pessoas falam disso como se fosse apenas estar conectada com a rede, como uma questão de infraestrutura. É claro que os cabos tem que estar espalhados por toda parte, mas o buraco é mais embaixo: é preciso saber usar os aparelhos (smartphone, TV-digital, etc.) e muito mais importante ainda: ter a cultura de pesquisar, avaliar e participar.

Segundo: a transparência. É impossível ter uma postura crítica sem informação confiável e consistente sobre os processos políticos. Assim como não existe responsabilização se não soubermos o que os representantes têm feito. Agora, quem tem conhecimento para revisar a burocracia estatal? Ou melhor, quem tem saco pra fazer isso? Quem se propõe a ficar vigiando político profissional fazer suas maracutaias? Pasmem: o Brasil possui um programa chamado Interlegis, implantado em 1997, que tem a missão de “preparar os parlamentos brasileiros para a e-democracia” (wikipedia.org). Faz VINTE anos que ele tá rodando e ninguém nunca soube disso!

Como fica então o “Estado transparente” ou a “ética da inteligência coletiva”, nomes sofisticados para o upgrade democrático, num contexto como o da América Latina? Ali no meio, um pouco pro lado, temos o Brasil, gigante adormecido, pura potência, único e viçoso. Entretanto, em geral o quadro histórico e social do continente é meio parecido e poderíamos dar o título de “miséria estrutural”. Qual seria, então, a previsão para “universalizar a banda larga” aqui? E ainda, como se dará o projeto de “instrumentalizar toda a sociedade para o uso da tecnologia” num território onde 20% da população é analfabeta funcional (incapaz de compreender textos simples), e 9% não sabe absolutamente ler ou escrever (dados do IBGE, 2009)?

A miséria estrutural

Quando digo “miséria estrutural” estou me referindo não apenas à infraestrutura precária (estradas, energia, telefonia, etc), mas acima de tudo à cultura. Uma matéria do Estadão de maio de 2016, disse que 44% dos brasileiros não leem livros e que 30% nunca compraram um. A média é de 5 livros lidos por ano por pessoa. Esse dado não é decisivo para a participação política ou para que uma pessoa conheça e tenha capacidade de avaliar sua própria situação (na verdade, as pessoas costumam saber mais sobre si do que os burocratas e professores acreditam). Mas é um indicativo.

Vejamos mais alguns dados do IBGE1. De 1994 a 1996, 92% dos entrevistados das regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre nunca entraram em contato com um político eleito para sugerir ou reivindicar posições. Apenas 2,5% eram filiados a algum partido. Metade das pessoas filiadas não participavam de nenhum tipo de atividade política, seja reunião ou manifestação. Também 29% dos entrevistados não usavam nenhuma fonte de informação para escolher seu voto. E 60% se informavam sobre política através da televisão. Já naquela época, 55% não acreditavam que políticos, sindicatos, igrejas, ou juízes eram as entidades que melhor defendiam seus interesses políticos. E pra fechar, 15% nem sabia o nome do presidente da república. “Mas quando fizeram a pesquisa não tinha internet!” Pois então vamos analisar outra pesquisa mais recente.

No relatório da Pesquisa Quantitativa sobre Hábitos de Informação do IBGE2, de 2010, a revista mais lida pelos entrevistados era a Veja (50%). E 97% da população tinha televisão, sendo a Globo o canal preferido de 70%. Sobre a internet: 46% disse ter o costume de acessar a rede. Em famílias que ganham até dois salários mínimos, apenas 23% acessa a internet. Já em famílias que ganham mais de 10 salários mínimos, o acesso chega a 80%.

Últimos dados, prometo. Só para termos uma noção da evolução do uso da internet, uma pesquisa de 2014, também do IBGE3, mostrava que agora 54% da população entrevistada dizia utilizar a internet, um aumento miserável em 4 anos. Porém, 77% de quem usa a rede estudou mais de 8 anos, enquanto 70% das pessoas que não acessam a rede tem menos de 8 anos de estudos.

Enfim, as estatísticas são infinitas, mas o cenário reforça cada vez mais a minha tese, que é a seguinte: uma transformação da operacionalidade da democracia em direção ao digital significaria uma Revolução Burguesa 2.0 e não uma democratização da política no sentido de ampliar a participação popular nas decisões e muito menos uma distribuição do Poder. São as pessoas com mais anos de estudos e maiores salários que vão usufruir essa mudança e assim poder defender melhor seus interesses. Isso se confirma também se atentarmos à tendência global sobre a desigualdade social: a despeito de toda a riqueza e tecnologia disponíveis, ela não para de crescer desde os anos 1970.4

A ideologia dominante

Porém, como a abolição da escravidão no Brasil e a aceitação das mulheres no mercado de trabalho em geral, muitas mudanças ditas progressistas são na verdade decisões da classe dominante visando (acertadamente) mais concentração de poder. A classe média, maior entusiasta da nova e ordeira iniciativa, só terá a sua ciberdemocracia se os atuais detentores do poder deixarem isso acontecer, ou se mudar sua estratégia, tornando-a rentável. Entretanto, pelo jeito que as coisas vão no governo Temer, pela mania do judiciário de interromper serviços de comunicação digital (como o caso do whatsapp) e pelo desinteresse fisiológico dos políticos de terem seus trambiques fiscalizados, é muito improvável que essa implementação venha a acontecer pela boa vontade de quem está em cima.

A miséria estrutural também é a terra fértil para o crescimento da postura do “menos pior é o que temos de melhor”. Essa forma de pensamento é uma espiral que lentamente nos empurra para baixo. Não que as pessoas não acreditem mais em utopias ou não apareçam com ideias mirabolantes sobre o futuro. O problema é que quando nos deparamos com opções reais durante o momento de nossas escolhas, damos sempre de cara com o menos pior. A gente tenta uma ideia boa e acaba frustrado. A frustração nos torna mais “realistas”: pra quê tanto? Ponderamos “racionalmente” e agora a ideia virou menos boa. E assim afundamos em espiral. Pelo menos ainda temos o voto para poder mudar o país!

O “menos pior” é o mantra de todas as eleições que já presenciei. Quando eu votava, esse também era o meu critério. E mais, se o trânsito tá uma merda, se a educação (mesmo e inclusive nas universidades públicas) é uma indústria de diplomas, se as leis trabalhistas tão cada vez mais flexíveis: agradeça! Agradeça que pelo menos tem ônibus no bairro, que existem escolas gratuitas, que temos alguma lei para proteger quem se esfola no trabalho. É como se fosse um dogma religioso, e portanto inquestionável, e ao querermos e pensarmos algo de fato bom, agradável e seguro estivéssemos cometendo um pecado. (Aqui, os defensores da democracia digital poderiam voltar meu próprio argumento contra mim, afirmando que não lhes estou permitindo espaço para o seu sonho. Porém, se não deu para sacar ainda, vou ser um pouco mais explícito: não estou falando de reformas, mas de mudanças radicais, de experimentações políticas e de igualdade social!)

Mais entraves

Para terminar esse texto, faltou comentar duas coisas. Primeira, o aumento da participação política do tipo democrática através da internet mudaria apenas o poder legislativo (o que já é bastante coisa, claro). Como disse Pierre Lévy, ela “encorajaria o pensamento coletivo da lei”, ou segundo a entrada da wikipedia, “o povo em si se tornaria o sistema legislativo”. Na teoria da separação dos poderes do Estado Liberal, o judiciário, o executivo e o legislativo são independentes. Porém, na prática, não apenas eles estão enosados e articulados, como são dependentes de empresas nacionais e internacionais, através de diversos acordos interpessoais. Pra quem ainda acha que isso é uma teoria da conspiração, basta ver o exemplo de democracia por excelência, os Estados Unidos, e sua lei de lobbys: influenciar políticos com dinheiro é parte legal do processo político. A propina (ou compra de votos ou opinião) virou parte do organismo democrático. Como então lançar um dos poderes ao povo?

A segunda coisa que faltou comentar diz respeito à vigilância. Uma democracia digital está embasada, além da transparência e da participação, no pressuposto da neutralidade do Estado. “Ele existe tão somente para gerir a coisa pública.” Se expressar opiniões dissidentes numa rede social ou lista de e-mails hoje pode levar à prisão, imagine num fórum público voltado exclusivamente para política legislativa, armazenado e gerido pelos servidores de computadores do próprio governo? Cada uma de suas opiniões estará vinculada à sua identidade, e o dossiê com todo o seu histórico estará disponível eternamente para qualquer governo – atual e posterior – avaliar e tomar decisões sobre o seu futuro (veja o caso da legalização da maconha no Uruguai). Esse tipo de operação já acontece há anos para conter o “inimigo interno”. Hoje, porém, uma decisão não precisa mais depender da escolha dos gestores ou fiscais: ela acontece por meio de algoritmos impessoais e automáticos. Aí a coisa ficaria definitivamente kafkiana.

A privacidade e o anonimato são essenciais para a liberdade de expressão. Então, é preciso resolver esse pepino, democratas.

Além disso, como diziam os pais da democracia moderna, os filósofos iluministas franceses: se deixarmos o governo na mão do povo, seja através da república ou, pior ainda, da democracia, teremos o caos! Esse medo vem lá de Aristóteles e possui o nome complicado de oclocracia, que é quando as “massas ensandecidas” passam a decidir as coisas. Não me parece que esse medo que a elite tem vai desaparecer por causa de mais smartphones.

1http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/condicaodevida/indicadoresminimos/suppme/default.shtm

2http://www.fenapro.org.br/relatoriodepesquisa.pdf

3ftp://ftp.ibge.gov.br/Acesso_a_internet_e_posse_celular/2014/Tabelas_de_Resultados/ods/01_Pessoas_de_10_Anos_ou_Mais_de_Idade/

4http://www.cartacapital.com.br/revista/873/no-mundo-de-os-miseraveis-5584.html

Só votar ou votar nulo não adianta nada!

Só votar ou votar nulo não adianta nada!

O sistema é feito para a gente acreditar que votar a cada dois anos é o máximo de poder politico que temos na sociedade. Basta a gente trabalhar de sol a sol, levantar e sair de casa em um domingo a cada dois anos (votando consciente claro) que tudo vai dar certo e que podemos voltar para nossas vidas porque já fizemos nossa parte no “jogo da democracia”.

Será esse o máximo que conseguimos fazer enquanto humanidade? Delegar o poder de decisão sobre nossas vidas para uma minoria que tem a pretensão de nos representar? Será que não conseguimos algo melhor do que isso? Com tanta tecnologia e conhecimento é o máximo que conseguimos?

Nunca acreditei nesse troço de que apertar um botão a cada dois anos seria o suficiente para construirmos uma democracia de verdade. Quando falo democracia de verdade digo algo radical, onde quem decide sobre a gente é a gente mesmo, sem intermediários. Onde as decisões são tomadas com base no diálogo, envolvendo as pessoas diretamente afetadas pelas decisões, sem hierarquias. Não por mandachuvas do Estado, nem por porta-vozes do Mercado.

Não acho que tenha uma solução mágica para isso. Penso que é um processo que a gente vai construindo dia a dia em nosso envolvimento com a politica. Não digo a politica institucional, da lógica dos gabinetes e das eleições. Falo da politica que vamos construindo quando se engajamos em alguma causa, onde se unimos como iguais por objetivos concretos e somos obrigados a tomar responsabilidade pelos próprios atos políticos que cometemos. Sejam eles montar um grupo de teatro, fazer uma horta comunitária, se engajar em uma greve, participar de um coletivo, movimento social ou associação.

Nessas ações vamos tomando consciência do poder que temos quando nos unimos. De que nossa força enquanto povo organizado é muito maior do que a de um voto a cada dois anos para escolher quem vai colocar o cabresto na gente.

E quem sabe se a gente se organizar direitinho a gente nem precisa mais dessa minoria que nos comanda muito menos das instituições e policias criadas para nos comandar…

Murilo Flores (PSB) e o discurso do “gestor técnico”.

Sei que Murilo Flores é um candidato “nanico” nas eleições de Floripa. Mas acho o discurso dele da técnica ser superior a politica é falso e ao mesmo tempo sedutor.

Essa contraposição entre “técnica” e “politica”, entre “gestão” e “ideologia” é um grande papo furado. Maior exemplo disso eu vi quando fui em uma audiência pública do plano diretor de Florianópolis. Estavam presentes cidadãos, movimentos sociais, entidades comunitárias, entidades profissionais de arquitetos e sindicatos patronais de construção civil e do setor hoteleiro, assim como IPUF (órgão da prefeitura responsável pelo planejamento urbano).

Diversos arquitetos em suas falas afirmavam que as decisões tomadas pelos cidadãos e entidades comunitárias eram muito românticas, ideológicas e pouco técnicas. Afinal de contas quem bancaria tantos parques públicos? Como fazer uma cidade crescer sem aumentar o tamanho dos prédios? Por fim um dos arquitetos defendeu a criação da Marina na beira-mar, e que tal projeto beneficiaria o transporte público marítimo na cidade.

Pouco tempo depois um cidadão fez uma pergunta ao IPUF sobre em que estado estavam os estudos de mobilidade urbana sobre a questão do transporte marítimo na cidade. O IPUF respondeu categoricamente que não havia estudo concluído!

Afinal de contas como um projeto como este da Marina pode ser anunciado pela Prefeitura na mídia, com local já estabelecido (beira-mar um dos metros quadrados mais caros da cidade), se nem estudo sobre mobilidade concluído existe para dizer que ali seria o melhor local para uma Marina.

Afinal de contas, como podem pessoas formadas em cursos superiores de instituições públicas respeitadas como a Universidade Federal de Santa Catarina defenderem com unhas e dentes um projeto como o da Marina, tão grande, que gastaria milhões de reais, teria um imenso impacto ambiental e privatizaria muita propriedade pública?

Um projeto que não foi discutido pela sociedade. Não foi discutido pelas comunidades no âmbito do Plano Diretor Participativo. Um projeto que no máximo passou pelo crivo da elite politica e econômica da cidade e que depois é propagandeado por algumas entidades profissionais e patronais, pela mídia e por algumas ONGs chapa-branca.

Enfim, sai de lá com mais certeza ainda de que este discurso da tecnocracia é um grande papo furado. Afinal de contas, os técnicos sempre servem aos políticos. Não existe uma “gestão técnica” desvinculada de uma visão politica. Que visão futura de sociedade espera o partido? Quem será priorizado pelas politicas públicas? Quem pagará a conta dessas politicas? Em que grupos de poder se apoiará o partido para conseguir governar?

É um velho discurso para convencer o povo de que as decisões tomadas lá em cima são necessárias, são assim, como leis da natureza. Assim como querem nos convencer todos os dias que devemos trabalhar cada vez mais e se aposentar cada vez mais tarde. Que o cara que vão colocar para comandar a Petrobras ou o Banco Central é “Um gestor do mercado e não uma politico”. Eles são sempre os gestores e trarão mais eficiência. E claro, isso tudo não é ideologia, é técnica.

E por último Murilo Flores é do PSB, cujo presidente em Santa Catarina é da família Bornhausen, família exemplo de coronelismo desde a ditadura militar. Os Bornhausen inclusive foram doadores de dinheiro para sua campanha. Difícil vir novidades de gestão de uma família que comanda SC a décadas.