O ano é 1999, em Seatle nos EUA os protestos contra a reunião da
Organização Mundial do Comércio reúnem milhares de pessoas. O movimento
de resistência contra a globalização neoliberal, vendida como a utopia
capitalista pelos donos do mundo após a queda do muro de Berlim, estava
em uma crescente.
A repressão estatal foi intensa, 500 pessoas foram presas e a guarda
nacional foi convocada. A mídia corporativa do mundo todo repetia em
uníssono o discurso da deslegitimação das manifestações através do foco
nos atos de vandalismo contra os símbolos do capital.
“A mídia mente, precisamos da nossa própria mídia.” Assim pensaram
aquelas e aqueles que participaram dos protestos. Precisamos divulgar e
cobrir nossas ações, encontrar nossa linguagem e os meios para
difundi-la. Era o germe do Centro De Mídia Independente, uma rede
autônoma de organizações de mídia livre, uma teia de coletivos
espalhados pelo mundo, com linguagem própria e que batia de frente com a
hegemonia capitalista.
As Zapatistas e suas cores, nas montanhas de Chiapas serviam como
inspiração para os “Outros Mundos” que sonhávamos construir: “Nosso
sangue e nossas palavras acenderam um pequeno fogo na montanha e o
levamos rumo à casa do poder e do dinheiro. Irmãos e irmãs de outras
raças e outras línguas, de outra cor e mesmo coração, protegeram a nossa
luz e dela acenderam seus respectivos fogos.”, diziam.
Cérebros, multicoloridos, sintonizam, emitem e comunicam para longe. Este impulso internacionalista e libertário teve ecos na América Latina e no Brasil, se mesclando ao caldo de experiência anteriores. O movimento de Rádios Livres no Brasil questionava o monopólio do espectro eletromagnético pelo Estado, entregando enormes fatias para empresas e igrejas, e migalhas para a comunicação comunitária e seus transmissores de baixa potência. Contra isso só havia uma saída: nos organizarmos em coletivos e colocar nossas próprias rádios no ar em um ato de desobediência civil. Na Argentina, companheir@s iam mais longe, e ministravam oficinas de montagem de transmissores, e até construíram uma estação de televisão livre em um prédio ocupado durante os protestos de 2001, no chamado Argentinazo.
O espírito criativo e rebelde do “faça você mesmo” estava presente
nas mais diversas iniciativas. O movimento do Software Livre influenciou
muita gente que construía estes espaços, com suas ideias de
conhecimento aberto, construção coletiva e de adaptação de ferramentas
para as necessidades locais. Coletivos ligados a tecnologia como o
Riseup surgiram nesta maré, fornecendo até hoje plataformas baseadas em
software livre em servidores autônomos para coletivos de ação pela
transformação social.
Vinte anos depois, cabe nos perguntarmos, Onde estamos?
O mundo se afunda em uma disputa geopolítica entre EUA, China e
Rússia. A crise climática e as ondas de refugiados são uma realidade, e
extrema-direita cresce no mundo todo. Os EUA são governados por Trump e o
Brasil por um sujeito que rasga elogios a ditadores e torturadores. O
povo Curdo, luta cada vez mais isolado por uma revolução em territórios
arrasados pela guerra civil e a Venezuela pode ser a próxima Síria. O
próprio Capitalismo encontra-se em um campo de batalha na disputa pelo
controle dos Estados, entre as antigas facções do neoliberalismo e as
novas mais à direita que negam o “globalismo” e defendem nacionalismos
chauvinistas, ressuscitando os fantasmas do fascismo.
E a mídia tem um grande peso neste cenário distópico.
Os governos latino-americanos da onda “progressista” pouco fizeram
para mudar a realidade da mídia hegemônica em seus países. E nós, do
lado autonomista desta história, vimos nossas iniciativas minguarem
pelos mais diversos motivos.
Nunca tivemos tanta gente com acesso a Internet, e os computadores,
antes restritos a uma seleta parcela da população, agora estão
disponíveis para as massas e cabem na palma da mão. A televisão ainda
tem a audiência de 79% dos brasileiros, mas o consumo de notícias pelas
“mídias sociais” tem aumentado: 91% dos brasileiros disseram usar a
internet para se informar e 138 milhões de brasileiros têm celular, com
116 milhões de pessoas conectadas na Internet, segundo dados de
2017/2018.
Hoje até nossos avós podem fazer uma “live” apontando os problemas do
posto de saúde do bairro. Mas o que vemos está bem longe da utopia da
Internet como ferramenta de libertação, como muitos de nós sonhávamos.
Fomos atropelados pelo crescimento de gigantescas corporações nascidas
no vale do Silício, que centralizaram a produção e o consumo de
informações em um pequeno grupo de serviços tão simples e massivos
quanto bilhões podem comprar. A centralização nestas plataformas é tão
grande que 55% dos brasileiros acham que o Facebook é a própria
internet.
Nesta maré, a “nova direita” incentivada por bilionários como os
irmãos Koch e Steve Bannon, ideólogo da extrema-direita mundial, nadou
de braçada. Adaptaram a sua linguagem aos memes e compraram consultorias
de empresas de engenharia social como a Cambridge Analytica, investindo
muito dinheiro em publicidade. As esquerdas se adaptaram ao sistema,
criando suas próprias bolhas dentro das plataformas corporativas e
abandonaram seus próprios espaços de comunicação, como os sites e listas
de e-mails.
Não estamos mais nos anos 2000 e os desafios para a mídia
independente de esquerda (a necessidade deste adjetivo já é um sinal
disto) são gigantescos.
Mas se aprendemos algo nestes últimos anos, é a dura constatação de
que as Plataformas que utilizamos não são “neutras”, elas refletem os
interesses e propósitos daqueles que as construíram, e estão embebidas
de seus valores. Isto é evidente em tempos de vigilância em massa e
algoritmos obscuros controlados por corporações.
Portanto, um princípio que já nos foi muito caro no passado, segue
cada vez mais fundamental nestes tempos turbulentos: É necessário que
tenhamos o máximo de conhecimento e controle sobre as tecnologias e as
ferramentas que utilizamos. Software Livre ainda é essencial, mas também
precisamos pensar no desenvolvimento de infraestruturas autônomas de
comunicação e até em hardware livre.
Para além deste princípio, temos outros pontos emergentes a pensar para evitar que nossos esforços tenham resultados efêmeros:
- O financiamento de nossas próprias iniciativas;
- A socialização do conhecimento técnico para além de pequenos grupos de especialistas;
- A possibilidade de integração/interação entre diferentes meios e
ferramentas, inclusive as corporativas, para evitar a formação de guetos
militantes;
Sem enfrentarmos estes problemas seguiremos discutindo
superficialmente e no curto prazo apenas questões “práticas” como qual é
o melhor aplicativo para alcançar seguidores ou se devemos impulsionar
ou não o evento da próxima manifestação. Precisamos cada vez mais
discutir Tecnopolítica e agir para retomar a mídia! Afinal de contas, já
criávamos nossas próprias redes sociais muito antes do surgimento
destes canalhas.
Por Capivara Vintage
Escrito no Verão de 2019